Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, Jornal do Brasil
RIO - Imaginado teoricamente nos anos 20 do século passado, projetado e construído nos anos 70 e 80, o Telescópio Espacial Hubble entrou em funcionamento a partir de 1990. Pela primeira vez foi possível ver mais longe e estudar as estruturas do universo até então desconhecidas ou pouco observadas. O Hubble, de uma forma geral, deu à civilização humana uma nova visão do universo e um salto equivalente ao dado pela luneta de Galileu Galilei, no século 17, há exatamente 400 anos. Com efeito, o telescópio projetado para ser colocado em órbita ao redor da Terra, acima da atmosfera, com a finalidade de eliminando a agitação e absorção atmosférica obter imagens de altíssima resolução dos corpos celestes, foi uma concepção do engenheiro alemão Hermann Oberth (1894-1989), um dos pioneiros da astronáutica, que teve seu projeto de tese, intitulado Die rakete zu den planetenraumen (O foguete para os espaços interplanetários), submetido à Universidade de Heidelberg em 1922, recusado por ter sido considerado como muito inverossímil, apesar de ter demonstrado a possibilidade do voo espacial com base em dados científicos rigorosos foi quem escreveu pela primeira vez, em 1923, sobre as vantagens da instalação de um telescópio astronômico em volta da Terra, acima da atmosfera.
Após a Segunda Grande Guerra, quando os foguetes utilizados pelos alemães, durante esse conflito, haviam demonstrado que os voos espaciais eram viáveis, o astrônomo norte-americano Lyman Spitzer Jr. (1914-1997), no artigo As vantagens astronômicas de um observatório extraterrestre, publicado em 1946, imaginou que a colocação em órbita, ao redor da Terra, de um grande telescópio permitiria observações livres das distorções e interferências produzidas pela agitação atmosférica. Como o seu precursor alemão, Spitzer teve que enfrentar, além das dificuldades de natureza orçamentária, as críticas dos colegas que preferiam o lançamento de pequenos telescópios à construção de um único de grandes dimensões, como havia sido proposto em 1946. Logo após a criação da Nasa, em 1958, Spitzer conseguiu que fosse incluído no primeiro programa da agência espacial norte-americana o seu projeto de um observatório astronômico orbital . Em 1964, criou-se o programa Large Space Telescope, cuja iniciais LST, foi inicialmente associada à expressão Lyman Spitzer Telescope. Para evitar crítica de um culto à personalidade, Spitzer decidiu rebatizá-lo de Hubble Space Telescope, ou HST, com o objetivo de homenagear o astrônomo norte-americano Edwin P. Hubble (1889-1953), que nos fins do anos 20 havia descoberto que o Universo encontra-se em expansão. No início dos anos 60, em consequência da decisão do presidente John Kennedy de enviar um astronauta à Lua, os fundos para as ciências espaciais foram generosamente aprovados pelo Congresso até 1966. Os efeitos da inflação crescente fizeram com que os orçamentos, após a missão Apollo, decrescessem.
Durante o governo de Richard Nixon, foram cortados os três maiores programas da Nasa: o voo a Marte, as duas últimas missões Apollo e a estação espacial. Em 1972, a Nasa conseguiu aprovar o desenvolvimento da Space Shuttle, nave espacial capaz de reduzir sensivelmente os custos dos lançamentos dos satélites, com o objetivo de transformar o espaço em uma atividade comercial rentável. Para se ter uma ideia do corte, é suficiente recordar que o orçamento da Nasa, no ano fiscal de 1974, da ordem de 3 bilhões de dólares, representava um terço do valor real nos anos generosos que antecederam a descida do primeiro homem na Lua. Com receio de perder a batalha, Spitzer e seu colega, o astrônomo norte-americano John Bahcall (1934-2005), dividiram entre si a lista dos parlamentares e iniciaram sua luta no Congresso. Apesar das oposições de alguns colegas, Spitzer e Bahcall conseguiram convencer os políticos com argumentos técnicos e científicos sobre as vantagens do seu projeto. Assim, em 1977, o Congresso apoiava o projeto, com um custo inicial estimado em 435 milhões de dólares. O lançamento do telescópio espacial, programado para 1983, previa que o mesmo deveria permanecer operacional durante um período de 10 a 15 anos. Um dos assessores científicos do presidente Reagan, George A. Keyworth, ao opinar sobre a realização do projeto, escreveu: Não é uma tarefa difícil (construir o HST), pois já adquirimos uma considerável experiência na fabricação industrial desse tipo de engenho. O HST é novo, mas a tecnologia é a mesma usada no sistema militar .
Na realidade, durante as últimas duas décadas, satélites de fotorreconhecimento, os espiões do céu , como eram conhecidos, vinham realizando um papel muito importante e indispensável segundo os militares, na vigilância dos territórios da URSS. Eles nada mais eram que um telescópio espacial simplificado. Com efeito, construir um telescópio espacial, como o HST, resumia-se em redesenhar um satélite espião que olhasse para cima e não para baixo.
As primeiras imagens do telescópio foram consideradas como muito decepcionantes por astrônomos e todos aqueles envolvidos no projeto. Estas imagens estavam borradas e, apesar do processamento de imagem, não se conseguiu atingir a resolução esperada. Porém, a situação foi corrigida numa missão especialmente concebida para a reparação do equipamento, em 1993, voltando o telescópio à operacionabilidade, ao tornar-se uma ferramenta vital para a astronomia. Desde então o telescópio foi visitado cinco vezes por astronautas operacionais para corrigir o mau funcionamento e instalação de novos equipamentos. Além disso, devido à resistência do ar, o telescópio lentamente perde altitude e ganha velocidade. Temos, portanto, de tomar cada uma dessas visitas de manutenção para substituir o telescópio para uma órbita mais elevada utilizando a nave espacial recuperável.
A quinta e última missão de manutenção foi realizada pela nave recuperável espacial Atlantis após a aprovação do administrador da Nasa Michael Griffin. O upgrade foi para instalar dois novos instrumentos científicos: o espectrógrafo origens cósmicas e de uma terceira câmara de grande campo. Esta missão Atlantis decolou em 11 de maio 2009 e levou 13 dias no espaço. O Hubble atualmente em excelente estado de funcionamento , após mais de 20 anos de serviço, será substituído pelo seu sucessor, o James Webb Space Telescope, com data prevista de lançamento para 2014.
Ronaldo Rogério de Freitas Mourão, além de astrônomo, é autor de mais de 85 livros, entre eles 'Astronomia e budismo'. Homepage: https://www.ronaldomourao.com