Oportunidade rara para rever os erros

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Se há algo de bom na tragédia, este é o traço de solidariedade que cimenta o trabalho de socorro humanitário de centenas de militares e civis em Porto Príncipe e outras cidades haitianas devastadas pelo terremoto de mais de 7 graus da escala Richter e por tremores secundários que sustentam a sensação de uma agonia interminável. Nessa babel de bem intencionados, como sempre ocorre, a valorização da vida em todos os seus aspectos, mesmo os mais cotidianos, está associada ao tamanho do morticínio. No tsunâmi de 2004, que arrasou a Indonésia, e em outras situações parecidas, a imensa corrente surgiu e tornou-se forte pelo sentimento que dissolve fronteiras e transforma rivalidades mortais em picuinhas de playground. O que importa ali é salvar, é impedir que histórias de vida sumam, que gerações possam desaparecer soterradas nos escombros. Cada sobrevivente que sai vivo dessa montanha infernal é aclamado como herói, pela resistência física capaz de desafiar a ciência, e pela fibra para manter-se vivo.

Mas o tempo vai passar. E está passando rápido, o que vai mudando o perfil do trabalho. As equipes de resgate, com a esperança de descobrir sobreviventes cada vez mais tênue, perdem a função. O trabalho é para coveiros e legistas. E não menos solidário ou dedicado por isso. Aqueles que, por razões sanitárias, estão sendo enterrados em covas comuns, estão tendo as impressões digitais e o rosto fotografados para posterior reconhecimento e exumação. Isso também é demonstração de respeito e sensibilidade com o drama da população. Some a impessoalidade que funciona como couraça para quem atua e lida com a desgraça.

É hora então de rever os erros do passado no Haiti e trabalhar para que não se repitam. O terremoto aniquilou pelo menos 15 anos do país e fez desaparecer justamente a geração de crianças que começava a despontar para um mundo no qual teriam educação, saúde, direitos, enfim, uma cidadania digna. Quando as equipes de resgate começarem a empacotar seus equipamentos, quando as grandes redes de televisão internacional já tiverem dado espaço para todas as suas estrelas aparecerem no grande espetáculo mundial em que se transformou essa cobertura, os sobreviventes continuarão lá. Necessitarão de tanto ou mais ajuda que agora, e de uma dose de esperança extra em um futuro possível. Somar a quantidade de dinheiro anunciada até agora para a reconstrução é fácil.

Difícil será transformar a montanha em comida, escolas, creches, hospitais e postos de saúde, bibliotecas e universidades, laboratórios de pesquisa. Mais difícil ainda será ajudar os pequenos traumatizados a se convencerem de que desta vez não será como nas histórias que ouviam dos seus pais, avós e bisavós. Que a multidão de anônimos solidários está lá para uma tarefa de longo prazo, baseada na superação diária de toda uma série de dificuldades. Se há verba para tanto, o caminho pode ser menos pedregoso, mas é preciso que ela seja transformada também no combustível que manterá o motor desse renascimento funcionando. Ou seja, que sejam criadas regras permanentes de aplicação com benefício definido e, sobretudo, com canais transparentes pelos quais tanto os haitianos como os organizadores da reconstrução possam acompanhar o fluxo desse capital do bem. O Haiti merece.