A orfandade programada de Dilma

Villas-Bôas Corrêa, Jornal do Brasil

RIO - É realmente comovedor, de inflar o peito e umedecer os olhos, a amizade entre o presidente Lula e a ministra-chefe da Casa Civil, Dilma Rousseff, lançada sem dar a menor confiança ao PT das decepções com o mensalão e o caixa 2, como a candidata à primeira presidenta da República deste país. A turma que ficou agarrada ao cordão petista, e às prendas de nomeações aos milhares, entoou o refrão perfeito para exorcizar suspeições maliciosas: é uma relação de pai com a filha.

E é com o coração amargurado que o presidente conta os dias que faltam para a separação nos palanques eleitorais. A candidata Dilma Rousseff deixará a chefia da Casa Civil da Presidência em 3 de abril, que é o prazo estabelecido pela Justiça Eleitoral.

Afinal, nada de tão dramático como o fim de capítulo de novela. Lula e a candidata não estão proibidos de emendar o primeiro ato da campanha, ostensivamente antecipada em desobediência impune aos prazos da lei, para as viagens às obras do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), do Minha Casa, Minha Vida para a construção de 1 milhão de residências populares e o mutirão de emergência para socorrer as populações dos estados, de Norte a Sul, que pagaram o alto preço do desleixo federal na recuperação das rodovias em pandarecos, dos milhares de famílias que perderam tudo nas enchentes e não sabem como recomeçar a vida do nada.

O calendário eleitoral é prioritário. O presidente e a candidata vão ficar fregueses das viagens a Minas, com vários objetivos. Talvez o mais importante seja evitar atritos com o governador Aécio Neves, que recusou os apelos do governador paulista José Serra, virtual candidato a presidente pela oposição para ser o companheiro de chapa.. A candidata Dilma vai se apresentar ao eleitor mineiro com a certidão de nascimento em Belo Horizonte, onde cresceu e estudou até iniciar o curso de economia na Universidade Federal de Minas Gerais. Mudou-se para o Rio Grande do Sul para tentar escapar da perseguição da ditadura militar dos cinco generais-presidentes.

Ao discursar, em Belo Horizonte, com lágrimas nos olhos e a voz embargada, a candidata mandou o seu recado ao coração dos mineiros: Não vou concordar com que haja um discurso para saber se sou mineira ou não. Não tenho a menor dúvida de que sou . E o final patético: A gente pode sair do estado onde nasce, mas ele não sai da alma e do coração .

O carimbo infalível da campanha, no entanto, foi a festança eleitoral com um serviço de bufê de fazer inveja aos rega-bofes de fim de semana dos ricaços, com mansões na região dos lagos. Na inauguração da Barragem do Rio Setúbal, em Jenipapo de Minas, cerca de 120 empregados do bufê Célia Soutto Mayor, de Belo Horizonte, foram contratados para servir refrigerantes e salgadinhos ao público que penava ao sol. Afinal, pousou o helicóptero com o presidente Lula, a ministra-candidata Dilma Rousseff e a seleta comitiva.

E os 120 garçons deram um show de eficiência. Ninguém ficou de goela seca e boca vazia, e na área da comitiva presidencial o requinte chegou ao penne ao molho branco.

Para a população, o agrado do feriado municipal e ônibus contratados pelo prefeito Márlio Costa (PDT) levavam o povo para a festança.

A campanha da candidata do presidente Lula promete seguir o modelo de Jenipapo de Minas: vai ser uma festa de arromba.

Villas-Bôas Corrêa é repórter político do JB.