Os dolorosos caminhos da paz

João Lins de Albuquerque, Jornal do Brasil

RIO - Para quem trabalhou nas Nações Unidas nas últimas décadas e participou de algumas das mais de 20 missões de paz da ONU espalhadas pelo mundo, não pode ter deixado de encontrar-se, pelo menos uma vez, com Luiz Carlos da Costa, tragicamente morto no abalo císmico de 12 de Janeiro, que destruiu a capital do Haiti e toda a sede da Minustah, da qual era vice-chefe.

Para essas pessoas, que o conheceram de perto, dificilmente seria possível também acreditar na sua ausência como diplomata habilidoso e preparado, capaz de antecipar e solucionar questões intrincadas nas engrenagens dos processos de paz e nos labirintos do multeralismo assertivo da organização mundial.

Último funcionário brasileiro a ocupar um dos cargos mais altos na hierarquia da ONU, Luis da Costa foi meu mentor, guia e amigo durante os vários anos em que servi nas Nações Unidas.

Acontecimento inacreditável e surpreendente para muitos de seus colegas, sua morte, para mim, foi uma experiência devastadora. Recordo-me emocionado que parece ontem que nos encontramos. De fato, há menos de dois meses, quando Luiz veio ao Brasil para participar de encontros com militares do Alto Comando das Forças Armadas, ele teve uma breve pausa de repouso. Convidou-me para um drinque no bar Bracarense, no Leblon, para colocarmos a conversa em dia . Tentei chegar mais cedo, mas quando botei os pés no restaurante, ele já estava lá, como sempre sorridente e receptivo. Sua pontualidade excedia a britânica.

Nessa noite, conversamos sobre projetos pessoais e sobre a ONU. Falei da experiência de ter voltado ao Rio depois de 15 anos de trabalho no Secretariado, em Nova York, da adaptação cultural, da praia e até mesmo da desvalorização do dólar que reduzira nossas pensões pela metade. Por sua vez, Luiz explicou-me que, ainda com dois anos de trabalho pela frente tinha apenas 60 anos e a aposentadoria compulsória era aos 62 seus desafios eram outros.

Entusiasmado, confessou que teria que continuar no Haiti, coordenando, ao lado do Representante do Secretário-Geral e do Chefe Militar, as melhores estratégias da ONU para a estabilização do país.

Nos últimos meses disse ele a Minustah tinha obtido progressos na área de segurança e e alcançado uma melhor coordenação entre os componentes militar, civil e policial. Estava esperançoso em relação aos investimentos internacionais que dariam novo impulso no processo de paz. A estabilização dependeria naturalmente do progresso social e dos esforços do combate à pobreza. A questão humanitária do Haiti explicou-me era um problema monumental. O Haiti é o país mais miserável do Hemisfério Ocidental.

O Brasil revelou-me Luiz desempenhava bem seu papel, mas a operação necessitava de um maior engajamento dos Estados membros da ONU. Depois que tivesse cumprido seu assignment , talvez sim, pensasse em aposentar-se no Brasil. Sua filha Anna já vivia no Rio e se adaptara muito bem.

Naquela noite, não ousou convidar-me para um trabalho temporário ou para ajudar numa pesquisa de campo em alguma divisão da ONU, como frequentemente fazia. Nos dias subsequentes voltou ao trabalho: não foi a praia, não foi a restaurantes e nem ao Jardim Botânico, um dos seus lugares preferidos no Rio. Voltou às pressas para o Haiti, que convertera-se no seu destino inevitável.

Nascido em 1949, Luiz morava oficialmente em Nova York há 40 anos. Carioca de nascimento, sua verdadeira pátria para além do Brasil era o mundo, sem as fronteiras habituais que separam os homens de seus problemas sociais, econômicos e políticos. No seu Laisser Passer azul da ONU figurava o título: chefe de Missão de Paz.

Quando, em 1991, Luiz da Costa me contratou para a Divisão de Educação e Informação da UNTAC (United Nations Transitional Authority in Cambodia, em português, Autoridade Transitória das Nações Unidas no Camboja), ele era chefe do Departamento de Recursos Humanos da ONU um caçador de talentos ou de suicidas, como queriam alguns. Era o Indiana Jones das Missões de Paz, um articulador de pessoas e postos. Convertera-se nos anos 90, por tudo isso, numa das personalidades mais assediadas da ONU, dado seu poder de recomendação e decisão. Antes de embarcar para a aventura de Phnom Pehn, convocou me para o 22º Andar do prédio do Secretariado, onde despachava.

Se tiver medo de represália dos Khmer-rouges, de mosquito, de malária, de doenças infecciosas ou de outras armadilhas, não vá! Lembre-se que você já era aguardado no Camboja ontem disse com um sorriso, certo de obter minha adesão.

Em fevereiro de 1992, quando já me sentia em casa no Camboja, Luiz da Costa me telefonou e cordialmente perguntou se eu não aceitaria uma transferência para a África. Senti até uma dor no estômago, por que a Ásia me fizera bem à alma e no Camboja, espiritualmente, já me sentia um budista.

Se não quiser ir, não vá! Mandaremos outra pessoa. Mas é um pedido do Secretário-Geral! Ademais, você se sentirá como um peixe dentro d'água em Luanda, porque lá se fala português! Pense e me telefone.

Uma semana depois ,já estava a caminho de ser o porta-voz da UNAVEM, Missão de Verificação das Nações Unidas em Angola, e trabalhar com a britânica Margareth Anstee, primeira mulher a converter-se em Representante do Secretário-Geral da ONU numa missão de paz, cargo majoritariamente atribuído a homens.

Luiz da Costa mudava a vida das pessoas. Depois de passar pelo Departamento de Recursos Humanos, deu um salto na direção do Departamento de Operações de Manutenção da Paz ( Department of Peace Keeping Operations DPKO).

Em 2006, quando comandava interinamente a missão da Libéria, Luiz da Costa foi

encarregado pelo então Secretário-Geral da ONU, Kofi Annan, de uma operação extremamente delicada: enviar o ex-presidente Charles Taylor, procurado por crimes de guerra e contra a humanidade para o Tribunal Especial da ONU, em Serra Leoa. Apesar do perigo que envolvia a transferência, Charles Taylor permaneceu apenas 37 minutos na Libéria. Sua capacidade executiva, não se prendia a esses episódios que, em geral, provocam grandes manchetes.

Ele se orgulhava de ter sido, sobretudo, o chefe de missão

que concretizou uma façanha aparentemente impossível: consolidou o estado de direito na Libéria e contribui para criação de instituições fundamentais de justiça e de respeito aos direitos humanos.

Quando foi designado para o Haiti, sua missão era, inicialmente, resolver divergências surgidas entre o então Chefe da Missão, o guatemalteco Edmond Mulet, e o comandante militar brasileiro, General José Elito Carvalho Siqueira. Costa foi bem sucedido nessa delicada tarefa: serviu como ponto de equilíbrio entre o setor civil e militar da Minustah.

Ao confirmar sua morte nos trágicos acontecimentos verificados no Haiti, o comedido Ban Ki-Moon quebrou o silêncio:

Seu extraordinário profissionalismo e sua dedicação igualavam seu carisma, sua devoção e sua ternura a todos os seus funcionários e amigos.

De acordo com o Secretário-Geral, Luiz Carlos da Costa foi o mentor de muitas gerações de pessoal que serviram a Organização nas últimas décadas. Uma lenda que passou pelas Nações Unidas. No verão de 1969, ainda muito jovem, ele procurou um trabalho temporário na ONU, na esperança de ganhar uns extras para poder depois comprar uma sela de cavalo. Sua paixão era o hipismo. Mas o destino o encaminhou na direção dos processos de paz.

No final dos trabalhos da Assembléia-Geral de 1969, foi considerado o melhor mensageiro da ONU, naquele ano.

Acabou ganhando um novo emprego e trabalhou durante dez anos no Departamento de Conferências das Nações Unidas. O que era para virar sela de cavalo, converteu-se em 40 anos de esforços em torno da estabilidade e da paz mundial.

Até o dia 12 de janeiro de 2010, Luis Carlos da Costa era o brasileiro mais graduado das Nações Unidas.

Ao lado da perda sofrida pela morte de Sérgio Vieira de Mello, morto num atentado no Iraque em agosto de 2003, a morte de Luiz Carlos da Costa representa uma séria perda para o Brasil, em termos de representatividade na ONU. Com menos de 130 brasileiros a maioria anônimos trabalhando numa organização que hoje conta com mais de 40 mil funcionários, o Brasil é hoje uma nação sub-representada nas Nações Unidas, apesar do considerável volume de suas contribuições. Não ocupa mais nenhum dos postos profissionais de grande destaque e responsabilidade da ONU.

Autêntico militante da paz, Luiz Carlos da Costa dificilmente será substituído à altura, mas seu exemplo continuará a inspirar novas gerações de brasileiros. Descanse em paz, Luiz!

João Lins de Albuquerque é jornalista, ex-chefe da Divisão de Língua Portuguesa da Rádio da ONU em Nova York.