Alexandre de Freitas Barbosa *, Jornal do Brasil
SÃO PAULO - Em novembro, cidadãos de São Paulo oram convidados para uma comemoração incomum. Acompanhado por baterias e chocalhos, um grupo de estudantes brasileiros fez uma dança de leão para marcar o primeiro aniversário do Instituto Confúcio. A dança chinesa no centro de São Paulo não deve ser uma metáfora para o fato de o Brasil dançar conforme a música da China, mas foi um indício dos laços cada vez mais estreitos entre dois dos poderes que mais crescem no mundo. Contatos culturais e comerciais cada vez mais intensos entre os dois podem estar pavimentando o caminho para cooperação política numa escala global e ajudando o Brasil a consolidar sua liderança na América do Sul. No entanto, laços comerciais crescentes, mas desequilibrados, também podem acelerar a desindustrialização do Brasil.
Fundado com recursos do governo chinês por meio de parceria entre a Universidade de Hubei e a Universidade Estadual Paulista com o objetivo de promover o poder, o idioma e a cultura chineses, o instituto é um indício da presença cada vez maior da China no Brasil. Por trás do avanço cultural se escondem laços econômicos que se fortalecem entre os dois países com o comércio aumentando de US$ 2 bilhões em 1998 para US$ 36 bilhões em 2008. Enquanto as exportações brasileiras estão concentradas principalmente em soja e minério de ferro, as vendas chinesas cobrem ampla gama de bens industriais, desde equipamentos eletrônicos, maquinaria, sapatos, têxteis e roupas. Além disso, o Brasil é responsável por menos de 1% do total das exportações chinesas, enquanto o país asiático é o destino de cerca de 10% das exportações brasileiras. Hoje, um terço das importações de equipamentos eletrônicos do Brasil vem da China, número que ultrapassa as importações dos EUA e da União Europeia juntas. Além disso, o Brasil, que costumava ser o maior exportador de bens para a região da América do Sul, agora enfrenta concorrência chinesa, não apenas dentro, mas fora da fronteira.
A competitividade das exportações chinesas não se destaca apenas por conta de sua força de trabalho barata: certamente esse fator não tem o mesmo peso para diferentes setores. Também está claro, contudo, que se o Brasil não criar uma estratégia de desenvolvimento coerente, corre o risco de perder seu poder industrial.
O Brasil virou "parceiro especial" da China em 1993, por razões muito concretas. O gigante sul-americano é um importante fornecedor de commodities, tem o maior mercado da região e gosta de aparecer no cenário global como representante da América do Sul no novo "mundo multipolar" discurso que anda de mãos dadas com a diplomacia da paz e do desenvolvimento de Pequim.
O instituto em São Paulo se engajou em ensinar o idioma chinês e estimular intercâmbio cultural. A cidade já tem 40 escolas chinesas.
Essa mania por China foi positiva para a comunidade chinesa em São Paulo. Tendo sido inundado por um mar de japoneses por tanto tempo São Paulo é a única cidade cosmopolita conhecida por não ter Chinatown a população chinesa recuperou sua autoestima e começou a comemorar o ano novo.
Apesar de a população de origem japonesa ser mais proeminente, a ligação da China com o Brasil, ex-colônia da coroa portuguesa, vem desde o século 17 bem antes de os japoneses aparecerem na cena. Comerciantes portugueses apresentaram chapéus para proteger do sol, ventiladores, porcelana, lençóis de seda, estilos de teto asiático e fogos, produtos em sua maioria chineses, para o Brasil. Gilberto Freyre, um dos sociólogos brasileiros mais ilustres, descobriu que a civilização da cana-de-açúcar serviu chá com açúcar em porcelana chinesa. De acordo com sua descrição poética, os bens asiáticos usados pela aristocracia rural trouxeram junto um modelo de família e sociedade que lembrava os padrões hierárquicos e patriarcais moldados no Brasil colonial.
A imigração chinesa no Brasil começou depois da Segunda Guerra Mundial. Até então, nem mesmo ondas de imigração foram vistas: apenas algumas bolhas, como as 400 famílias que foram trazidas para o Rio de Janeiro pelo imperador português em 1814 para produzir chá. No censo brasileiro de 1940, 646 imigrantes chineses foram contados.
Hoje, os números são muito mais altos. A maioria dos chineses vive dentro e nos arredores da cidade de São Paulo, trabalhando principalmente no setor de varejo. Alguns são empreendedores tentando conseguir uma oportunidade melhor. Eles se beneficiam de redes informais formadas pela comunidade chinesa fora do país de origem. Outros enfrentam perversa globalização executada por máfias espalhadas por todo o mundo. Eles são os trabalhadores em regime de servidão da nossa época.
É possível se ter uma ideia do número de imigrantes chineses ilegais no Brasil por meio dos dados coletados pela Polícia Federal, que, desde agosto, garantiu anistia aos que já estão no Brasil sem permissão. A população chinesa é responsável pela segunda maior demanda por residência brasileira, depois dos bolivianos, alcançando quase cinco mil pessoas.
A presença da China na mídia brasileira é cheia de altos e baixos. Ano passado, o poder asiático estava inundando o mercado interno do país com bens industriais. Agora, a China ajuda a recuperação econômica do país por meio da forte demanda de importações. A política de diversificar a gama de aliados políticos precisa estar incluída em uma economia muito mais forte, capaz de aumentar seu mercado interno e dar conta do desafio chinês em casa e no exterior.
* professor de História Econômica da Universidade de São Paulo