Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Eleito sob o signo da mudança, o presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, fez sua campanha à Casa Branca de modo impetuoso. Suas promessas acenavam para uma alteração do status quo muito mais cortante do que o necessário para se ganhar a eleição. Afinal, nenhum governo em 60 anos foi tão impopular quanto o de George W. Bush. Com este clima de opinião, desbancar os republicanos não seria tarefa das mais difíceis, ainda que o candidato democrata fosse Hillary Clinton. Mas Barack Obama, numa mistura de idealismo com inexperiência, fez compromissos além dos esperados. Iniciada sua administração, precisou rever promessas e adequar seu programa à realidade. Não obstante a vontade política, teve de recuar frente ao poderoso establishment de Washington, às hostes republicanas da oposição, ao fogo amigo vindo de parlamentares de seu próprio partido, à burocracia militar. A anunciada retirada das tropas do Afeganistão, por exemplo, não se concretizou, e Obama, agraciado com o Nobel da Paz, teve de explicar o porquê do envio de mais 30 mil soldados à guerra.
O que em outras situações seria taxado de estelionato eleitoral, no caso do governo Barack Obama vai se cristalizando como uma trajetória de marchas e contramarchas, de uma tática de dar um passo atrás e dois para a frente. É o caso do fechamento da prisão de Guantánamo. Um dos símbolos da era Bush, o centro de detenção localizado na base militar americana em Cuba vem manchando, desde 2002, sob o pretexto de combate ao terrorismo, toda a tradição democrática e o respeito ao império da lei dos quais os Estados Unidos se consideram difusores e guardiães. Guantánamo virou um monumento de arbitrariedade e violação dos direitos humanos, por receber presos supostamente ligados a grupos terroristas em alguns casos verificou-se que eram inocentes e pelos relatos de tortura física e psicológica. Tudo sem passar pelo devido processo legal.
O fechamento de Guantánamo era uma das prioridades de Obama. No início, o presidente enfrentou muitas resistências, sobretudo diante dos ataques dos republicanos liderados pelo falcão Dick Cheney, vice-presidente de George W. Bush, que afirmava ser um perigo trazer para o território americano exatamente os terroristas que ameaçavam o país. Agora, contudo, depois do recuo estratégico, Obama avança e anuncia a compra de uma prisão no estado de Illinois, a 240 km de Chicago, para receber os detentos de Guantánamo.
No melhor estilo pragmático e orientado para o lucro, tipicamente americano, há quem veja na iniciativa, como o governador Pat Quinn e o senador Richard Durbin, ambos democratas, uma oportunidade de movimentar a economia da região. A transferência dos presos para a Thomson Correctional Facility penitenciária da pequena cidade rural de Thomson, que precisaria passar por reforma e adaptação de seis meses para se transformar num presídio de segurança máxima criaria mais de 3 mil empregos em uma área empobrecida do estado. A presença dos presos suspeitos de terrorismo representaria mais de US$ 1 bilhão em investimentos em quatro anos. Parlamentares republicanos do Illinois contra-argumentam, afirmando que o estado será um alvo de futuros ataques terroristas. É a velha tática do medo e da paranoia, na qual os conservadores são mestres.