Editorial, Jornal do Brasil
RIO - É auspicioso o debate que está pondo em questão um novo ordenamento urbano para o Centro do Rio de Janeiro. Lançada pela prefeitura, a ideia de se fechar a Avenida Rio Branco para circulação de veículos deve ser analisada com o cuidado que merece para não se transformar num grande transtorno à população mas precisa ser encarada como um instigante desafio. É evidente que o Centro do Rio padece de inúmeros problemas. Desde o excesso de veículos, sobretudo de ônibus, que exige soluções mais técnicas, dando racionalidade ao sistema de tráfego, até assuntos mais delicados, que dizem respeito a uma questão econômica e social, como o crescimento do número de moradores de rua e o comércio ambulante.
É bem-vinda a proposta de se converter a Avenida Rio Branco num passeio público para pedestres, conquanto se façam as necessárias intervenções em todo o regime de transporte que deságua no Centro. A ideia tem como inspiração a cidade de Nova York. Mas cada caso tem suas particularidades. Em Londres, os administradores locais há algum tempo resolveram restringir o volume do tráfego criando pesadas taxas para a circulação de veículos. O Rio precisa encontrar o seu caminho.
Um dos sintomas da falta de racionalidade que se reflete no trânsito no Centro do Rio está no fato de que inúmeras linhas de ônibus passam por suas ruas e avenidas, sem necessidade. Há uma redundância no sistema, criando congestionamento, poluição e desperdício de recursos.
Uma opção seria a criação de linhas circulares, para aliviar a região do Centro, como meio de evitar o tráfego pesado, que seria diluído e transferido para vias marginais. A palavra-chave é a integração das diversas modalidades de transporte presentes na região. O trânsito caótico deve ficar no passado e dar lugar a um novo modelo, mais aprazível, inclusive explorando o potencial histórico e turístico local.
O novo Centro precisa estar em sintonia com o também essencial e sempre protelado projeto de revitalização da Zona Portuária. Finalmente, ao que parece, ele está saindo do papel nesta nova administração. Será um gol de placa e talvez seu maior legado para o urbanismo do Rio de Janeiro se a prefeitura conseguir realizar seus planos nesta região.
A polêmica derrubada do Viaduto da Perimetral, neste sentido, é uma iniciativa que pode dar consistência e coerência às intervenções na Avenida Rio Branco. Sem a Perimetral, abre-se caminho para se fazer um corredor entre o Centro, o porto e arredores. Barcelona, a cidade mais carioca da Europa por sua geografia de montanhas e mar e modernizada após a Olimpíada de 1992, mais uma vez pode servir de exemplo. Suas Ramblas, um calçadão de dois quilômetros de extensão, são um espaço vivo, mesmo à noite, que leva o passante até o píer e o porto com restaurantes e cinemas.
Nem sempre, claro, é possível reproduzir modelos urbanísticos e de comportamento tão peculiares a algumas cidades, como Amsterdã, cuja boa parte dos moradores usa a bicicleta como meio de transporte. A capital holandesa é uma cidade onde as distâncias são muito menores. Mas o Rio precisa tentar achar a melhor solução para o seu Centro. Para que ele seja funcional, agradável e, quem sabe, até admirado.