Editorial, Jornal do Brasil
RIO - Haveria algo de contraditório, condenável, no fato de um ganhador do Prêmio Nobel da Paz enviar menos de dois meses depois de receber a láurea mais 30 mil soldados para uma guerra? O aguardado anúncio feito na noite de anteontem pelo presidente dos Estados Unidos, Barack Obama, sobre qual será sua estratégia em relação ao Afeganistão, levantou a questão e despertou críticas.
Durante a campanha presidencial americana de 2008, quando surgiu como um fenômeno, justamente pelo que traria de novos ares para a política americana e internacional, Obama assegurou que sua administração seria marcada por uma guinada. Mais diplomacia e menos isolamento e beligerância nas relações com os outros países. Tudo muito diferente do estilo de seu antecessor, George W. Bush, que acionou, como há muito não se via, a máquina de guerra dos Estados Unidos, espalhando o antiamericanismo pelo mundo.
Obama venceu, assumiu e, agora, depois de três meses estudando a melhor estratégia para a situação no Afeganistão, decidiu não por trazer de volta os soldados mas pelo envio de mais tropas. A medida pode parecer incoerente e impopular: tanto por contradizer seu discurso de campanha (o exercício do governo é sempre mais complicado do que promessas lançadas para a plateia) quanto pelo fato de ter recebido o Prêmio Nobel da Paz.
Mas não há nada de contraditório. Em primeiro lugar, a distinção conferida a Obama em outubro pela Academia Sueca levou em conta muito mais o que o presidente americano poderia fazer do que pelo que já tinha feito em termos de promoção da paz. Ele mesmo e a maioria ficaram surpresos. Foi uma antecipação empolgada. E uma premiação política, mais do que meritória ou coerente com a biografia do homenageado. É esta uma das características do Nobel da Paz. Diferentemente de outras premiações da academia, em que há uma relação inequívoca entre o laureado e a contribuição excepcional para a sua área de atuação, o Nobel da Paz nem sempre é oferecido para pacifistas de currículo comprovado, como uma Madre Teresa de Calcutá (1979) ou um Dalai Lama (1989). Muitas vezes, para celebrar ou estimular a paz, reconheceu-se quem fez a guerra. Exemplos são vários, como o general americano George Marshall (1953), que lutou na Primeira e na Segunda Guerra Mundial, e recebeu o prêmio pelo Plano Marshall, de reconstrução da Europa. Ou o ex-secretário de Estado americano Henry Kissinger, que apoiou ditaduras latino-americanas, e foi premiado, em 1973, com o líder vietnamita Le Duc Tho, pelo acordo de cessar-fogo na Guerra do Vietnã. Em mais duas ocasiões, o Nobel da Paz foi dividido por líderes nacionais cujos passados foram marcados pelo radicalismo ou mesmo pelo terrorismo: Anwar al-Sadat (Egito) e Menachem Begin (Israel), em 1978, pelo acordo de paz selado entre os dois países; e, em 1994, Yasser Arafat (Palestina) e Yitzhak Rabin (Israel), por concluírem o Acordo de Paz de Oslo.
Por fim, a decisão de Obama não é injustificada. Houve muitos erros na condução da guerra no Afeganistão e é preciso consertá-los. De nada adianta bater em retirada, deixando para trás um país desestruturado, com instituições e governo frágeis, vulnerável à barbárie dos talibãs e da Al Qaeda. Neste caso, batalhas a mais podem salvar muitas vidas. E levar à paz.