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Campanha x Presidência

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Mauricio Dias David , Jornal do Brasil

RIO - O presidente Barack Obama pronunciou na terça-feira um importante discurso definindo sua nova estratégia para a guerra que se trava no Afeganistão e Paquistão. Em completa contradição com o seu discurso de campanha para as eleições presidenciais do ano passado na qual a ênfase foi colocada na crítica dura às políticas de Bush de envolvimento no Iraque e no Afeganistão e na promessa de uma rápida retirada das tropas americanas de ambos países o presidente americano vê-se obrigado a dar um giro de 180 graus em suas posições.

A retirada das tropas fica adiada para um longínquo 2011, na esperança de que, até lá, as coisas se resolvam por si próprias. E, de imediato, o anúncio do envio, no início de 2010, de mais 30 mil soldados americanos para o Afeganistão, sem contar o pedido aos reticentes aliados da Otan para o envio de mais 10 mil soldados, completam uma estratégia ancorada em uma presença estrangeira de 150 mil homens. É muita coisa para quem, na campanha presidencial, acenava com a volta imediata dos soldados americanos envolvidos na guerra irresponsável que o adversário Bush desenvolvia contra os Talibãs desde 2001. É muita coisa para quem recebeu o Prêmio Nobel da Paz pelas promessas de desengajamento de guerras cada vez mais impopulares.

Além disso, trata-se de uma guerra que os Estados Unidos estão perdendo, como reconheceu o próprio Obama em seu discurso de apresentação da nova estratégia. Uma guerra que já custou, também nas palavras de Obama, mais de US$ 1 trilhão, somente no período que antecedeu a sua ascensão ao poder. É um custo muito elevado para um país imerso em uma crise econômica profunda e em dúvida sobre sua própria sobrevivência como líder mundial.

Quando não se pode mudar a realidade dos fatos, muda-se o discurso. Obama, cada vez mais pressionado pelos chefes militares a aumentar o contingente de forças americanas, vai, de concessão em concessão, se afundando em um lamaçal que a cada dia se parece mais com a desastrada escalada que conduziu ao envolvimento progressivo, nas décadas de 60 e 70 do século passado, de mais e mais tropas na guerra do Vietnã.

As dificuldades que as tropas americanas e da Otan estão encontrando no combate aos talibãs podem ser um prenúncio de que a nova estratégia de Obama está mais para uma repetição dos desastres da escalada das tropas no Vietnã, conduzida pelo então secretário de Defesa americano Robert McNamara, do que para o rápido término da guerra com que acenava, há um ano, o então candidato Barack Obama.

Mauricio Dias David é professor da Universidade Federal Fluminense (UFF)