Educação de qualidade e competitividade

Humberto Viana Guimarães, Jornal do Brasil

RIO - Com raras exceções, o ensino no Brasil, em todos os níveis está sofrível. Da alfabetização, passando pelo primeiro e segundo graus e chegando até a universidade, a situação, de um modo geral, é lastimável. Basta observar as estatísticas oficiais que mostram os altos índices de analfabetismo e, o que é pior, dos chamados analfabetos funcionais. Qualquer pessoa de bom senso sabe que um cidadão alfabetizado não é somente aquele que sabe assinar (grande parte só rabisca) o seu nome, e sim ler, entender e interpretar o que está escrito em um determinado texto.

O que aconteceu com o ensino do Brasil? Quem é da minha geração (nasci em 1950), sabe que, antes das modernas reformas que não reprovam ninguém, o ensino era dividido no primário e ginásio (quatro anos cada) e científico (três anos). Quem terminava o primário dentro da média mínima exigida não ia direto para o ginásio, pois tinha que fazer o exame de admissão, que na verdade era uma prévia do vestibular. Lá chegando, além das matérias básicas aprendia-se latim, francês e inglês. Que fique registrado, os três idiomas não eram opcionais e sim obrigatórios.

Finalizado o ginásio, fazia-se um curso de avaliação para entrar no curso científico, seja em colégio privado ou público. E, diga-se de passagem, era mais difícil passar na avaliação dos colégios públicos do que nos particulares. Terminado o curso científico, o aluno se inscrevia direto para o vestibular, pois naquele tempo não havia a indústria dos cursinhos pré-vestibulares de hoje em dia; afinal o ensino daquela época já era suficiente.

Fiz o meu curso primário no Grupo Escolar Teófilo Benedicto Otoni, na cidade de

mesmo nome, no nordeste de Minas Gerais. Foi lá, com minhas queridas mestras Carmen Rocha, Neyde e Irene Leal e Ivone Cunha Melo, que aprendi as primeiras letras e consolidei a minha base cultural, que hoje desfruto.

Sentíamos que as professoras davam aula de forma prazerosa, com amor à profissão que haviam abraçado. Por sua vez, os pais dos alunos em todo início de ano letivo, levavam os seus filhos ao Grupo Escolar e os entregava aos mestres, com a recomendação de que fossem exigentes. Nossos pais sabiam que a escola era o nosso futuro e que os mestres representavam a fonte do saber e, portanto, merecedores de todo nosso respeito e admiração.

Mensalmente, havia o boletim com as notas, inclusive comportamento, e que era obrigatoriamente assinado pelo pai ou mãe do aluno, além de que, na parede da sala, era colocado um quadro emoldurado com a classificação geral dos alunos daquela turma (hoje em dia isso não seria permitido, pois, segundo alguns especialistas criaria constrangimento ao aluno!). Diariamente nos perfilávamos para cantar os hinos pátrios: Nacional, à Bandeira, da Independência e da República. Como dever de casa, além de outros afazeres, sempre desenhávamos mapas de todos os continentes, com seus países e respectivas capitais. Em todas as datas históricas, havia competição entre as turmas para premiar a melhor redação sobre o assunto, sempre com a participação da professora da turma.

O tempo passou, vieram as tantas reformas e o que vimos? Uma explosão de estabelecimentos que, com raras exceções, se preocupam mais com a quantidade de alunos do que com a qualidade do ensino. Vendem a falsa ideia de que um MBA, doutorado ou mestrado resolverá o problema no futuro. Ledo engano!

As nossas autoridades em vez de enfrentar a situação com realismo preferem ficar nos discursos e promessas e nada muda. Sempre que se inicia o ano escolar, vem sempre a mesma ladainha: escolas em péssimas condições, a crônica falta de professores ou professores despreparados e desmotivados.

Tales Faria, então editor-chefe do JB em seu texto Pela pós-gradução no jornalismo (20/9), expôs de forma clara as mazelas do ensino de jornalismo e credita aos grupelhos, que prefiro chamar de mercadores de ensino , os cursos de péssima qualidade. No entanto, essa mediocridade do ensino não se restringe somente à área jornalística, mas a todos os demais cursos. Há faculdades de turismo que não têm na sua grade curricular o ensino de nenhum idioma estrangeiro. Boa parte dos egressos das universidades não sabe redigir um texto de conteúdo; isso sem falar nos erros de concordância verbal e nominal.

Existe solução para o problema? Sim! Basta que se melhore o ensino fundamental e que todas as faculdades, sem exceção, adotem o proceder da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), ou seja, para se ter a carteira definitiva e poder exercer a profissão, o profissional terá que passar por um exame que comprove os seus conhecimentos.

Não temos alternativa. Ou investimos num ensino de qualidade para que sejamos realmente competitivos e praticar a diplomacia empresarial, ou então ficaremos eternamente a reboque das tecnologias importadas e com o eterno título de país em desenvolvimento.

Humberto Viana Guimarães é engenheiro civil e consultor.