A paz é possível

Dom Orani João Tempesta, Jornal do Brasil

RIO - Domingo, dia 25 de outubro, tivemos a grata ocasião de celebrar a festa de Nossa Senhora da Penha, quando fizemos o envio dos nossos missionários, abrindo, assim, a Missão Continental em nossa arquidiocese, e também a alegria de entregar aos vigários episcopais e coordenadores pastorais os exemplares da segunda etapa da preparação do 11º Plano de Pastoral. Iniciamos também, com todo o Brasil, a Semana da Amazônia que está em curso.

A celebração constou de procissão, missa, coroação e depois a subida da escadaria do santuário para depositar a imagem histórica no local conhecido pela sua altura e visão de uma grande parte da Cidade Maravilhosa.

Pouco antes dessa celebração tive a oportunidade de passar rapidamente pelo local do encontro dos jovens, que estavam celebrando o Dia Nacional da Juventude (DNJ), e refletir com eles sobre o tema anual.

Para este ano, o tema escolhido para o DNJ é: Contra o extermínio da juventude, na luta pela vida , em perfeita sintonia com a Campanha da Fraternidade, quando foi ressaltada a questão da segurança pública, tão premente nos dias violentos e sem respeito à ordem pública em que vivemos. Ligado ao tema do DNJ está o lema: Juventude em marcha contra a violência .

A celebração da Penha contou com milhares de pessoas que, inclusive após as celebrações litúrgicas, permaneceram muito tempo nos festejos populares. A minha proposta é para que se incrementem mais ainda as peregrinações e celebrações nesse nosso Santuário Mariano Arquidiocesano.

Infelizmente as notícias do dia seguinte saíram exatamente ao contrário da realidade vivida, como às vezes acontece devido aos interesses comerciais. Na semana da festa houve alguns problemas graves nas vizinhanças do santuário e alguns jornais publicaram sobre a utilização do local do santuário para outras finalidades que não a devoção.

Diante da veiculação da notícia, e quando perguntado, recordei que a subida e descida do santuário é livre para todos e não temos condições de saber quem sobe ou não, e que pode até ser utilizado por grupos com finalidades diferentes. Lembrei também que nunca houve nenhuma violência contra algum devoto ou pessoa no patamar do santuário e, por isso, nunca foi necessário recorrer a policiais.

A beleza do povo nas ruas e a bela celebração pedindo paz e fraternidade, procurando o bem da cidade, cederam lugar a manchetes desse assunto que eu tomei conhecimento pelos próprios jornais. Perdeu-se um belo momento de construir a paz e chamar as pessoas à reconciliação!

No entanto, na terça-feira, 27 de outubro, quando lançamos aos pés do Cristo Redentor a campanha Eu sou de Cristo , fiz questão de salientar que não era apenas para a manutenção da imagem célebre de nossa cidade e que necessita de conservação, mas que gostaria que esta campanha pudesse fazer com que todos se encontrassem com Cristo nas pessoas de seus irmãos e irmãs e, assim, trabalhassem pela fraternidade e pela paz. Que fosse uma oportunidade de vivermos a Missão Continental. Nesse sentido agradeço muito a repercussão positiva de divulgar uma boa notícia pela mídia e chamar as pessoas para gestos generosos e caritativos.

Diante das realidades que existem ao nosso redor, temos um grave dever de retroalimentar as boas notícias, o positivo, e a esperança em tempos melhores. É uma grave responsabilidade de todos nós que trabalhamos nesta bela cidade torná-la ainda mais bela em suas pessoas e nos relacionamentos humanos. Se já é bela e feliz, poderá ser ainda melhor! Eis um grande desafio!

Quando contemplo o Cristo Redentor de braços abertos para nossa Cidade Maravilhosa, com tanta beleza natural e com tantas pessoas animadas na missão pastoral, como arcebispo desta maravilhosa Igreja Metropolitana eu não posso compreender que essa querida cidade seja palco de tanta violência. E a violência provoca sempre mais violência.

É preciso semear a paz no Rio de Janeiro, que, apesar de tudo, continua lindo! Jesus Cristo, no sermão das bem-aventuranças, afirma que os pacíficos serão chamados filhos de Deus.

A Igreja, guardiã da missão de propor a civilização do amor, da paz e da concórdia, recorda a todos que Deus vem ao nosso encontro nas horas mais duras, mais sofridas, e, com amor e luz, ilumina todos os que vivem nessa cidade maravilhosa.

Por isso, rezemos: Cristo Redentor, cuja imagem do alto do Corcovado tem os braços abertos, recorda a todos que abençoas esta linda cidade do Rio de Janeiro. Afasta dela a violência, para que as pessoas que aqui vivem ou chegam possam caminhar em paz, sem medo, sem ameaças, sem sobressaltos. Que a alegria de viver e o encanto da vida estejam no sorriso das crianças, no recinto dos lares, nas praças, nas praias, nos morros e favelas dessa nossa bela cidade. Que as pessoas se respeitem, se amem, se venerem. E que, em muito breve tempo, querido Cristo Redentor, possamos ter aqui uma sociedade tranquila, onde seu nome seja respeitado e se implante quanto antes a Civilização do Amor.

Dom Orani João Tempesta é arcebispo do Rio de Janeiro.