Estado de direito e paralelo acuados

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Há muito a tarefa de combater o crime organizado no Rio de Janeiro tomou proporções tão complexas que não basta à polícia subir morros e favelas à caça dos bandidos. As facções do tráfico tornaram-se tão poderosas e audaciosas que suas ações não se restringem à administração estática de pontos de vendas de drogas que retalha a cidade geograficamente em áreas dominadas. A dinâmica própria do confronto entre grupos rivais, com a prática das invasões de morros, mostra o quanto o crime organizado é ousado a ponto de se movimentar pela cidade, criando a sensação de que há uma guerra particular, para além do controle das forças de segurança do Estado.

Os episódios deste fim de semana, que amedrontaram a população na Zona Norte do Rio e cujas imagens foram divulgadas internacionalmente, são um retrato do tamanho do desafio a ser enfrentado, ainda mais agora que a cidade receberá os dois maiores eventos esportivos mundiais, a Copa do Mundo, em 2014, e os Jogos Olímpicos, dois anos depois.

Pela primeira vez, um helicóptero da polícia foi abatido durante uma troca de tiros com traficantes. A cena foi impactante. Alvejada por rajadas de fuzil, a aeronave começou a pegar fogo e explodiu quando fazia um pouso de emergência numa vila olímpica. Dois dos seis tripulantes, que não conseguiram escapar a tempo, morreram carbonizados. O sobrevoo do helicóptero se dava em meio às tentativas da polícia de acabar com a guerra entre duas facções de traficantes, que já durava a madrugada inteira de sexta para sábado.

Não bastasse o trágico acidente provocado, a violência dos bandidos continuou e se espalhou para longe dos arredores do Morro dos Macacos, epicentro da disputa entre as facções criminosas. Cercados pela Polícia Militar, os traficantes que invadiram a favela de Vila Isabel comandaram uma série de ataques a ônibus, incendiados em diversos pontos da cidade, com o objetivo de dividir as forças da polícia. Dez veículos foram destruídos, causando um prejuízo de R$ 2,5 milhões. Ao todo, as seguidas horas de violência deixaram um saldo de 14 pessoas mortas, sendo três vítimas inocentes. Eram primos que voltavam de uma festa e, por azar, encontraram pelo caminho o bonde dos traficantes invasores, que os executaram.

Esses aterrorizantes acontecimentos mostram a audácia e a brutalidade dos bandidos, cada vez mais armados. E deixam a sociedade preocupada. Mas também podem revelar certo desespero do crime organizado, em razão da criação das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), que começaram a expulsar, pela primeira vez, o tráfico de drogas pesado de algumas comunidades. O resultado das UPPs ainda é irregular, o que é natural, até pelas diferentes condições de cada favela. Mas caso o exemplo bem-sucedido do Dona Marta, em Botafogo, se dissemine, como pretende o governo do estado, as grandes facções tendem a ficar acuadas. Ao perderem territórios, alguns bastante lucrativos, como os da Zona Sul da cidade, é esperado que elas invadam pontos rivais para manter seus ganhos. É um efeito colateral, mas que deve ser previsto e combatido pelo setor de inteligência da polícia. Antecipar essas movimentações é o melhor caminho para que a cidade não fique refém das consequências imprevisíveis de guerras entre representantes do Estado (ou da barbárie) paralelo.