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Uma tarefa para amanhã

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Rússia Hoje, JB Online

REDAÇÃO - Por portaria do ministro da Educação e Ciência, o programa escolar de literatura russa do século 20 foi suplementado com o estudo de fragmentos do romance "Arquipélago Gulag", de Aleksandr Soljenitsyn. Certamente, isso não é simplesmente bom ou desejável: é necessário. Provavelmente, a decisão foi adotada depois que Vladimir Putin se encontrou com Natália Dmitriévna, a viúva do escritor. Em certo sentido, é um tributo à memória do falecido clássico. Entretanto, a escola não é a instituição convocada a prestar preito à memória, pois ela não existe só para isso.

O "Arquipélago Gulag" descrição de uma terrível máquina de terror dá ao sistema coordenadas morais para o estudo do passado soviético recente. Essa é uma obra sem a qual o homem não pode se desenvolver como cidadão da Rússia. Pode-se estudá-la em duas disciplinas simultaneamente (em história e em literatura), e se obtém um efeito multiplicador. Os adolescentes pelo menos ficarão sabendo da origem das coisas e o que ocorria no país bem antes de Putin ser presidente. Claro que existe certo receio: a jovem geração ficará aborrecida ao abrir esse volumoso tomo? Pois até "Guerra e paz" cada vez mais o folheiam, e não o leem atentamente. A propósito, exige-se algum esforço pessoal. E isso, acho eu, será inevitável: os alunos de escola aprenderão a ler livros. Hoje, os adolescentes encaram qualquer leitura não como satisfação, mas como trabalho árduo - o que é sinal dos tempos e dos costumes. E se lhes for indiferente com que ficar aborrecido, pois que fiquem enfadados com o "Arquipélago". As pessoas que elaboraram os programas e os professores deverão selecionar os trechos mais fortes, para que na memória dos alunos fique gravada a essência que reflete a frase de Soljenitsyn: Em todo o planeta e em toda a história não houve regime mais malvado, sanguinário e, além disso, ardiloso e engenhoso do que o bolchevique .

Quando, na escola, divulgam as obras clássicas, via de regra reconstroem a figura do autor. Pushkin, por exemplo, não é o autor apenas de Evguieni Oniéguin; e o Pushkin da primeira fase, em grande medida, não se parece com aquele dos últimos anos. E assim ocorre também com Soljenitsyn. Existe o Soljenitsyn do "Arquipélago"; existe o Soljenitsyn de "A roda vermelha"; e o Soljenitsyn de "Duzentos anos juntos". Soljenitsyn foi uma figura extremamente complexa, e, naturalmente, seria dificultoso explicar às crianças todos os zigue-zagues de sua mente e todos os aspectos da sua invulgar natureza. Mas muito do que diz respeito à história deve ser explicado. Por exemplo, onde buscar as raízes do terror? Se não tivesse havido terror vermelho entre 1918 e 1920, certamente não teria havido Stalinismo. Embora de alguma forma eles nitidamente divergissem: Lênin era internacionalista, e certamente não era antissemita como Stálin. Lênin não dava cabo dos seus companheiros de partido, como fazia Stálin, mas, com prazer, fazia isso com todos os demais. Depois da revolução, Stálin copiou muitas ideias do adversário Trotski. Por exemplo, no que dizia respeito ao campesinato. Mas depois começou a improvisação. Até o fim da década de 1930, Stálin, em geral, bebe muita coisa na fonte de Lênin e de Trotski. Mas, no início da década de 1940, e, especialmente, depois da guerra, ele aprende com Hitler.

O Soljenitsyn dos primeiros anos, de "Um dia na vida de Ivan Denísovitch" e "Pavilhão de cancerosos", é ideal para estudo. Mas, com a idade, Aleksandr Issaievitch complicou a arte de escrever e inventou uma linguagem própria. As obras do último período de Soljenitsyn, evidentemente, não podem ser dadas em escola. As circunstâncias de sua biografia o famoso discurso pronunciado na Universidade de Havard e a sua estada em Vermont também são problemáticos.

Outro professor dirá: "bom, damos o Gulag para as crianças, mostramos como tudo era terrível. Mas será preciso mencionar também um exemplo positivo! Senão a consciência histórica dessa geração ficará traumatizada". Encontrar o ideal em nós é complicado, pois já temos uma história sangrenta e trágica. E não dá para estudá-la com as posições de Benkendorf, que indicava como deve escrever o historiador-patriota: nosso passado é maravilhoso; o presente é brilhante; e o futuro está acima de quaisquer expectativas.

Os russos devem se orgulhar não da potência imperial que deu frutos duvidosos e que duas vezes no século 20 levou ao colapso e ao desaparecimento do estado, mas de Pushkin, Tchekhov e Tolstoi. A cultura russa é objeto de orgulho. E no que diz respeito à história, o povo que suportou tudo que se descreve no "Arquipélago", e, além disso, derrotou o nazismo, tem do que se orgulhar. Acho que o professor terá habilidade para colocar a questão dessa forma.

Nikolai Svanidze é jornalista russo de televisão, comentarista político e âncora de TV. Membro da Câmara Social da Federação Russa, desde 2009 é integrante da Comissão de Resistência às Tentativas de Falsificação da História em Detrimento dos Interesses da Rússia.

Nikolai Svanidze, historiador e publicista