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A grande chance

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Hermann Gonçalves Marx *, Jornal do Brasil

SÃO PAULO - Tudo começou até antes de nós existirmos como Nação. Do livro 1808 , de Laurentino Gomes, extraio o seguinte: Os dois fatores combinados a escassez de recursos demográficos e financeiros e o atraso nas ideias políticas e nos costumes haviam transformado Portugal numa terra nostálgica, refém do passado e incapaz de enfrentar desafios do futuro e ainda que o imenso império colonial, tão vasto quanto vulnerável, estava no mais completo desacordo com os meios de ação de que a metrópole dispunha para o defender e o manter .

A riqueza de Portugal era resultado do dinheiro fácil, como os ganhos de herança, cassinos e loterias, que não exigem sacrifício, esforço de criatividade e inovação, nem investimento de longo prazo em educação e criação de leis e instituições duradouras. Numa época em que a Revolução Industrial britânica começava a redefinir as relações econômicas e o futuro das nações, os portugueses ainda estavam presos ao sistema extrativista e mercantilista... Baseava-se na exploração pura e simples das colônias, sem que nelas fosse necessário investir em infra-estrutura, educação ou melhorias de qualquer espécie

O que completa a ideia de que a dependência da economia extrativista fez com que a manufatura nunca se desenvolvesse em Portugal. Tudo era comprado de fora .

Isso propiciou o grande enfraquecimento da indústria na matriz e seu nunca desenvolvimento nas colônias.

Mesmo na época de Dom Pedro, quando o país tinha uma participação de mais de 2% do comércio mundial, tudo que era industrializado de alguma forma era comprado com a exportação de matéria prima, em especial dos metais nobres, a ponto de serem enviados a Portugal, durante o século XVIII, a valor de aproximadamente 30 bilhões de reais na moeda de hoje, segundo o mesmo autor.

Atualmente, o país tem dividido a sua exportação em aproximadamente duas partes iguais: manufaturados e produtos básicos, o que demonstra uma grande evolução em relação aos tempos de colônia.

Entretanto, do lado da importação, as compras de matérias-primas e intermediários representaram 46,2% da pauta total, e as de bens de capital, 24,9%, demonstrando que a pauta brasileira de importação é fortemente vinculada a bens direcionados à atividade produtiva , segundo o panorama de comércio exterior, janeiro a junho 2009, publicado no site do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior.

Assim, o Brasil continua atrasado em relação à capacidade de produzir alguns produtos mais industrializados. Questão de herança.

Também é uma questão cultural, herança dos tempos de colônia, achar que as pessoas que vêm de fora são mais instruídas, mais capazes e, por isso, elas devem estar nos postos mais elevados das empresas aqui localizadas.

Na China, o governo moderno, depois de anos de Mao, decidiu que deveria dar capacidade industrial e de pesquisa e desenvolvimento a seu povo. Assim forçava (ou impunha) que cada empresa estrangeira que quisesse se instalar no país, a fim de aproveitar-se da mão de obra barata e alta capacidade de trabalho do povo chinês, a ter um sócio chinês, senão o próprio governo.

No Brasil, é chegada a hora de ganhar, mostrando que o povo é capaz. O recentíssimo movimento global de transferência de linhas de produção ou até de fábricas inteiras para o Brasil é a grande chance. Cerca de 50 empresas solicitaram ao governo autorização para trazer suas máquinas para o país, em segmentos variados e vindos de países diversos, que dominam a tecnologia. Até a compra de aviões para a Aeronáutica é uma grande oportunidade de se ganhar conhecimento científico, o que será absolutamente necessário para alcançarmos um futuro melhor.

Seria essa a chance de exigir alguma contrapartida. Por exemplo, que boa parte de seus executivos de primeira e segunda linha fosse brasileira; que parte dos ganhos fosse investido em pesquisas, preferencialmente junto com as universidades do país, afim de que o conhecimento fosse difundido.

Além disso, deve o governo federal criar junto com as empresas mecanismos que permitam que não somente máquinas usadas (isto é, não de última geração) sejam importadas pelas novas plantas, como se aqui fosse um descarte do que lá não mais serve, mas sim que estejamos em mesmo plano de pesquisa e desenvolvimento.

É, portanto, chegada a hora de se dar a volta por cima do período de colônia e sermos mais participantes do comércio mundial do futuro.

* Hermann Gonçalves Marx é graduado em engenharia mecânica pelo Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), com especialização em economia industrial pela Universidade Técnica de Aachen, na Alemanha. Atualmente é professor convidado da FIA-USP e professor da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM).

A íntegra deste artigo pode ser lida em