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Vladimir Putin até 2024?

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Osvaldo Coggiola, Jornal do Brasil

RIO - Vladimir Putin deu indicação de que pretende regressar ao poder em 2012, quando termina o mandato do presidente Dmitry Medvedev. Isso significa que poderia permanecer na Presidência até 2024. A Rússia se somaria aos países com poder político marcadamente pessoal, em que as instituições representativas se subordinam a um líder indiscutível. Medvedev teria sido um mero período de transição, mas já admite a possibilidade de se candidatar novamente em 2012.

Putin foi diretor da KGB, chegando ao posto de coronel. Em 1999, na renúncia de Yeltsin, assumiu como presidente interino. Depois foi eleito presidente da Federação Russa, com quase 60 milhões de votos. Em 2004, conseguiu mais de 70% dos votos.

A recandidatura de Putin vincula-se com a crise mundial, a contração do crédito e a queda dos preços do petróleo e outras matérias primas: a Rússia enfrenta sua pior crise desde o calote de agosto de 1998. As reservas de capital do Estado são fortes, devido à renda diferencial obtida durante os sete anos prévios a 2008 e aos aumentos do preço do petróleo. Mas a crise contraiu os créditos obtidos para projetos ambiciosos de expansão energética. Em setembro/outubro de 2008, as bolsas russas perderam 75% de seu valor, provocando fugas de capitais externos. O Estado fez uma injeção de liquidez de US$ 90 bilhões para evitar novo calote.

Os novos ricos russos tiveram de repatriar capitais para manter o sistema financeiro do país: eles, porém, são ricos em ativos, mas pobres em liquidez. O Estado hipertrofiado repassou parte da crise aos magnatas, mas agora precisa apelar para seus próprios recursos: as reservas caíram. A dívida externa chegou a US$ 527 bilhões.

A estabilização da economia russa se sustentou sobre a energia. Com a queda do preço do petróleo e das matérias primas, esse pilar se deteriora. A inflação deteriora os salários e amplia o descontentamento: já há greves importantes.

Os liberais de Garry Kasparov não são uma alternativa a essa situação. E Medvedev careceria da força política para disciplinar o Estado. Nessa brecha ressurge a perspectiva de uma reconcentração do poder político em torno de uma Presidência forte, interna e externamente: Putin. Com projeção sobre o conflito no Afeganistão, onde Obama reforça a presença militar em um cenário de conflito regional agudo. A evolução da Rússia pode aguçar tensões internacionais quando se proclama, apressadamente, a saída da crise econômica.

* Osvaldo Coggiola é professor de história contemporânea da USP e escritor.