Editorial, Jornal do Brasil
RIO - De uma forma geral as eleições no Afeganistão foram consideradas uma vitória. O maior interessado em um processo de votação sem violência, o presidente Barack Obama, saudou o avanço da democracia. A despeito das ameaças da milícia talibã de cortar o dedo de quem fosse flagrado com a tinta que comprova o exercício do voto, a violência não turvou o processo. É ótimo, mas é também um acontecimento que precisa ser lido como parte de uma longa e sangrenta trajetória. Esse país inóspito, encravado no coração da Ásia, é palco de batalhas entre ocidentais e muçulmanos desde o século 19. E continuará a sê-lo por enquanto. A urna e o processo de votação demonstram, e esse talvez seja um resultado mais eloquente do que saber quem venceu, que uma eventual paralisia da coalizão internacional não acontece. A reconstrução pós-conflito é uma das ciências mais complicadas no escopo das Nações Unidas e, embora aplicada dentro de um modelo comum, sempre é forçada a adaptações de acordo com as peculiaridades dos países.
No Afeganistão, corações e mentes ficaram distantes desse apelo por muitos anos, e uma das razões foi justamente o distanciamento americano após a derrocada da União Soviética, no início dos anos 90. Não sem razão, muitos líderes afegãos trazem amarga avaliação do interesse da Casa Branca pela memória de uma atitude no mínimo hipócrita. Afinal, enquanto foi importante derrotar a máquina militar do Kremlin, os afegãos foram tratados a pão de ló. Quando esse tempo acabou, aliados foram abandonados, e o vácuo da reconstrução civil permitiu que o radicalismo religioso, associado aos interesses paquistaneses no confronto com a Índia, criasse as condições para que os ovos da serpente eclodissem em setembro de 2001. Antes da guerra civil que culminou com a tomada do poder pelos talibãs, Cabul era uma cidade limpa e organizada na medida do possível. Meses de bombardeio ordenado por Gulbuddin, O engenheiro Hekmatyar um dos mais violentos líderes tribais afegãos, aliado de ocasião da Al Qaeda de Osama bin Laden contra a cidade a transformaram na ruína que o Ocidente decidiu reformar em 2001.
Americanos e europeus sabem perfeitamente que a guerra esquecida em 2003 com a invasão do Iraque é o mais sério confronto das últimas décadas. Assimétrica, irregular, é o pesadelo dos estrategistas. E não há outro caminho a não ser vencê-la, pois lida-se com um inimigo incapaz de ser persuadido pela moderação. No governo Clinton, esse foi o erro cometido pelo Departamento de Estado, quando os fundamentalistas tomaram o poder. Não por acaso, além das forças da Otan, 60 mil soldados da elite militar americana estão lutando nos cantos mais perdidos das montanhas afegãs. E a eles se somarão outros 6 mil, apoiados pela mais moderna tecnologia à disposição. É preciso asfixiar o movimento subterrâneo que alimenta a milícia com simpatizantes de vários países, e uma presença militar maciça ajuda a dissuadir quem ainda acredita na Terceira Cruzada. É essa a crença que sustenta o otimismo de Barack Obama. Nesse ponto, a eleição funcionou como reforço, ainda que o índice de abstenção tenha sido considerado elevado e a representatividade de Hamid Karzai tenha perdido brilho. Democracia também é um estado de espírito, e quem pintou o dedo sem medo de perdê-lo espalhou a mensagem da renovação.