Uma campanha bem-vinda

Editorial, Jornal do Brasil

RIO - Merece enfáticos elogios a campanha Acessibilidade: siga essa ideia, promovida pelo Conselho Nacional dos Direitos da Pessoa Portadora de Deficiência, o Conade. Mais ainda, a iniciativa de 13 clubes brasileiros de aderirem à causa. São eles: América, Botafogo, Atlético-MG, Cruzeiro, Bahia, Vitória, Fluminense, Grêmio, Santos, Sport, Internacional, Villa Nova-MG e Vasco da Gama este último comprometido desde o último sábado, quando o presidente Roberto Dinamite e a presidente do Conade, Denise Granja, confirmaram a decisão de o clube fazer reformas em São Januário para garantir no futuro o direito de ir e vir dos portadores de necessidades especiais. Melhor assim.

A campanha destina-se a sensibilizar e mobilizar o público a eliminar barreiras arquitetônicas, que impedem os deficientes de participar mais ativamente da vida em sociedade. Segundo Niusarete Margarida de Lima, da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (Corde), o Brasil tem hoje aproximadamente 15 milhões de portadores de deficiência, ou seja, cerca de 14,5% da população brasileira. A barreira, em boa parte dos casos, é arquitetônica. Mas, em geral, é também cultural. A campanha ajuda a superar as duas coisas.

No caso do futebol, problemas de acessibilidade tornam-se ainda mais inquietantes. Trata-se, afinal, de uma cidade que será uma das sedes da Copa do Mundo de 2014 a mais importante, diga-se e aspirante aos Jogos Olímpicos e Paraolímpicos de 2016.

Há pouco mais de duas semanas, o JB detalhou um estudo realizado pela Rede de Desenvolvimento do Turismo Sustentável das regiões turísticas do Rio de Janeiro e Niterói (RedeTuris). Nele, representantes do setor atribuem nota zero ao quesito acessibilidade. Por aqui, conclui-se, não é fácil a vida das pessoas que dependem de cadeiras de rodas ou sofrem outras limitações de mobilidade devido a deficiências físicas. Faltam rampas e sobram escadas em locais de grande movimentação. As calçadas são esburacadas. As ruas, desniveladas e mal iluminadas.

Não foi à toa que nenhum dos quatro pólos submetidos à análise receberam nota acima de zero. O maior problema dos portadores de deficiência que se aventuram a caminhar pelo Rio é que, até hoje, a acessibilidade está restrita a ilhas dentro de projetos de urbanismo e ordenação pública. O primeiro e provavelmente o último até a chegada de Eduardo Paes à prefeitura deu-se com o Rio Cidade, durante a primeira gestão de Cesar Maia (1993-1997) e a de seu sucessor, Luiz Paulo Conde (1997-2001). Os bairros contemplados receberam algumas obras que visavam melhorar acessos às calçadas e o nivelamento das vias. Depois disso, o assunto parece ter sido esquecido.

A administração de Eduardo Paes parece consciente da importância de rever a política do esquecimento. Logo no início de sua gestão, o então recém-empossado secretário da Pessoa com Deficiência chegou a mencionar, em entrevista ao JB, o número de ônibus adaptados existentes na capital fluminense: 48. Destes, apenas metade estava em circulação. A comparação com o percentual de deficientes no país conduziu o próprio secretário à matemática do absurdo. É esse estado de coisas que precisa ser superado e é contra ele que se voltam campanhas como essa do Conade.