O futuro sem rodas

Richard M. Stephan *, Jornal do Brasil

RIO DE JANEIRO - O transporte público eficiente, não poluidor e com custo de implantação competitivo representa um desafio do mundo moderno. Cidades que dispõem de uma extensa malha de metrôs subterrâneos são consideradas modelos bem-sucedidos. No entanto, o custo de implantação dessas vias, na faixa de R$ 100 a R$ 300 milhões por quilômetro, dificulta a execução de muitos projetos.

Na busca de uma solução, a Coppe/UFRJ vem desenvolvendo um veículo de levitação magnética (MagLev) com articulações múltiplas que lhe permite efetuar curvas com raios de 50 m, vencer aclives de até 15% e operar silenciosamente em vias elevadas a uma velocidade de 70 km/h. Batizado de MagLevCobra, o veículo desenvolvido no Laboratório de Aplicações de Supercondutores (Lasup) da Coppe é composto de pequenos módulos que permitirão a inserção em curvas de raio reduzido, fazendo que o movimento se assemelhe ao de uma serpente, o que justifica o seu nome. Trata-se de uma boa opção para as grandes cidades brasileiras, com custo de implantação estimado em 1/3 do valor necessário para a construção de metrôs. Essa redução deve-se ao fato de que as obras civis são menos onerosas, uma vez que o caráter silencioso do veículo e sua capacidade de vencer curvas e declives, tendo a carga distribuída e não concentrada no ponto de contato roda-trilho, o permite circular em leves estruturas elevadas, aproveitando canteiros centrais e margens de canais e rios e dispensando instalações subterrâneas.

As tecnologias de levitação magnética existentes apresentam vantagens em termos de poluição ambiental, sonora e capacidade de se adequar a topografia da região. As principais técnicas de levitação magnética podem ser subdivididos em três grupos: Levitação Eletrodinâmica (EDL), Levitação Eletromagnética (EML) e Levitação Supercondutora (SML).

A EDL e a EML são mais apropriadas para o transporte de alta velocidade, enquanto a SML é mais adequada para o transporte urbano. A proposta japonesa de trem de levitação, em teste na linha de Yamanashi, está calcada no princípio EDL de forças de repulsão". Já a levitação eletromagnética (EML), que trabalha com as forças de atração existentes entre um eletroimã e um material ferromagnético, tem um exemplo de sucesso na proposta alemã de trem de levitação, o Transrapid, implantada comercialmente em Xangai, na China, numa conexão de 30 km.

A levitação supercondutora (SML) baseia-se na propriedade diamagnética dos supercondutores para exclusão do campo magnético do interior dos supercondutores. Esta propriedade só pôde ser devidamente explorada a partir do final do século 20 com o advento de novos materiais magnéticos e de pastilhas supercondutoras de alta temperatura crítica.

A potência necessária para levitar um veículo baseado no método ELM ou EDL é da ordem de 1,7 kW por tonelada. Em altas velocidades, este valor torna-se comparativamente pequeno em relação à potência necessária para a tração, o que torna esses métodos ideais para ligações interurbanas, como Rio-São Paulo, quando a alta velocidade tem um papel preponderante. Já no caso da tecnologia SML, a potência necessária para levitação é praticamente zero, ideal para o transporte urbano, onde predominam pequenas distâncias entre estações e baixas velocidades. Em vista disso, a proposta MagLev-Cobra de veículo de levitação magnética para transporte urbano baseia-se na tecnologia SML.

Acredito que as tecnologias de levitação magnética, de uma forma geral, romperão paradigmas e serão a melhor opção para o transporte urbano e interurbano do futuro. Para os interessados em se aprofundar no tema, sugiro a leitura do livro O Futuro das Estradas de Ferro do Brasil, de autoria do meu colega Eduardo G. David, publicado recentemente.

* Coordenador do Projeto MagLev Cobra e professor do Programa de Engenharia Elétrica da Coppe e da Poli / UFRJ