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O ataúde de cristal

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Mauro Santayana, Jornal do Brasil

RIO - Era o meio da tarde, em Madri. Talvez já fosse o outono de 1972, porque a memória registra folhas amareladas nas árvores do elegante bairro de Puerta del Hierro. O Jornal do Brasil me enviara de Bonn à Espanha a fim de ouvir Perón, cujo retorno à Argentina estava em andamento. O acesso a Perón era controlado por Lopez Rega, que pertencera à Polícia Nacional argentina, servia ao general como guarda-costas, secretário pessoal e bruxo amador, e se destacaria nos crimes cometidos pela Tríplice A, meses depois, em seu país. O que me disse Perón valia para aquele momento. Muito mais importante do que me disse el general, foi a visita, acompanhado de Lopez Rega, ao segundo andar da residência, onde se encontrava, em ataúde de cristal, o corpo embalsamado de Eva Perón. Parecia uma boneca de cera.

Inquietou-me o culto que lhe dedicavam o ex-policial e Isabel Perón. Tive a certeza de que se tratava de um simulacro. Um e outro cumpriam o ritual macabro porque era de seu interesse. Talvez Perón a isso fosse indiferente. Eram todos aproveitadores do mito. Aquela menina de Los Toldos, que conquistara Buenos Aires e se fizera deusa de los grasitas, continuava dominando a Argentina. Sua sombra iluminada se mantém sobre o destino do país até os nossos dias.

Evita e Guevara foram os dois grandes mitos revolucionários do século 20, mas se o Che foi homem de ideias e do combate armado, com sua vida e pensamento submetidos à análise da razão histórica, a menina de Los Toldos permanece sendo um mistério. É nesse mistério que se fez a sua grandeza. Como atriz de radionovelas, Eva protagonizou uma série sobre as grandes mulheres da história. Uma delas foi Teodora, também atriz, que, com sua beleza mas também seu senso político se fez amante de Justiniano, depois sua esposa e imperatriz; promoveu as primeiras leis em favor das mulheres e foi mais importante do que o marido isso no século 6 depois de Cristo. Em quase tudo, Eva seguiu o script da grande Teodora que, depois de morta, foi declarada augusta.

Se não fosse Teodora, os inimigos de Justiniano o teriam apeado do trono, na revolta de Nika, em 532. Acossados e amedrontados, Justiniano e seus ministros se preparavam para fugir, quando Teodora os admoestou. Se quisessem, fugissem: ela permaneceria para morrer com suas vestes de imperatriz, que lhe serviriam de honrosa mortalha. O brio os levou a resistir e a vencer a insurreição. Eva, quando Perón hesitava em ir à Casa Rosada, a fim de acalmar os manifestantes que ela mobilizara em seu favor, o obrigou a fazê-lo, e isso mudou a história de sua pátria. Como Teodora, Eva lutou pelas mulheres e a ela se deve o direito feminino ao voto na Argentina.

Eva nasceu em 1919 e iniciou a sua carreira ao lado de Perón aos 25 anos, em 1944. Sete anos depois, em 26 de julho de 1952, morria, em plena glória. Como Teodora, depois de lenta agonia e, como a imperatriz, de câncer.

Sem pai que a reconhecesse, menosprezada pelas irmãs mais velhas, humilhada em seus primeiros passos em Buenos Aires, Maria Eva se definiu dias antes de morrer: Tenho carne, sangue e alma de povo. Não podia fazer outra coisa, senão entregar-me ao povo .