Modernidade a passos lentos

Editorial , Jornal do Brasil

RIO - Aproveitar ao máximo os recursos humanos da corporação e identificar redutos específicos da criminalidade em suas áreas de atuação. Estas são as promessas embutidas na nova tecnologia que, paulatinamente, vem equipando os batalhões da Polícia Militar do Rio. No entanto, a falta de técnicos capacitados para instalar e ensinar a ferramenta aos comandantes, uma certa resistência em fazer da tecnologia parte da rotina de trabalho e o fato de nem todos os distritos policiais serem do tipo delegacia legal (mesmo tendo se passado nove anos da implantação do projeto) ainda atrasam a chegada da modernidade ao coração da segurança pública.

Instalado em 11 dos 18 batalhões da capital, o Observatório de Análise Criminal reúne dados do 190 (telefone de emergência da PM) e das ocorrências das delegacias da área até meia hora depois de a vítima ter registrado o crime, o que permite aos batalhões organizarem o policiamento ostensivo de acordo com a dinâmica da mancha criminal. O software que permite acesso aos registros feitos nas delegacias de acordo com horários e logradouros vem sendo instalado pelo Instituto de Segurança Pública (ISP) e pela Secretaria Estadual de Segurança Pública desde o início do ano. Mas, pelo visto, ainda está longe o momento em que todos os batalhões do estado estarão estruturados e fazendo uso do equipamento, uma vez que apenas dois funcionários estão atualmente responsáveis pela instalação.

A eficácia do equipamento já é comprovada na prática. Num dos primeiros batalhões a usar o programa o 13º BPM (Praça Tiradentes) o comandante logo verificou alta incidência de roubo a transeuntes na Praça Melvin Jones, no Centro. Em poucos dias, organizou uma operação com PMs do Serviço Reservado e desarticulou a quadrilha. O comandante do batalhão, tenente-coronel Antônio Henrique de Oliveira, conta que, antes, demorava meses para ter acesso aos dados do ISP. Agora, recebe um mapa preciso das ocorrências criminais até meia hora após serem registradas nas delegacias. Numa região vital para a cidade, como o Centro (com 300 agências bancárias e grande incidência de roubos a transeunte), a ferramenta é classificada pelo comandante como espetacular .

Outro beneficiado pela tecnologia além do cidadão, é claro foi o Batalhão de Policiamento em Vias Especiais, que reduziu em 25% os roubos a transeuntes em março na Avenida Brasil e na Linha Amarela. A demanda pelo software é crescente, mas a dupla de funcionários encarregada de instalá-lo nos batalhões não consegue dar conta de todo o serviço. Alguns comandantes, porém, admitem certo receio com a adaptação que a nova ferramenta pode causar na rotina de trabalho das tropas. Segundo eles, é preciso um trabalho conjunto com os soldados para que a eficácia nas mudanças de policiamento seja compreendida.

À parte a questão pedagógica, o atraso tecnológico de algumas delegacias também atravanca a chegada do século 21 à rotina da segurança pública. No batalhão de Rocha Miranda, por exemplo, recebem-se apenas os dados do telefone de emergência da PM, uma vez que as delegacias da área ainda não fazem parte do Programa Delegacia Legal ou seja, não têm acesso à rede de dados da Polícia Civil. Consertar os gargalos e apressar a implantação do Observatório em todo o estado deve ser, portanto, a prioridade número 1 da polícia em termos de avanço tecnológico.