O primeiro movimento, registrado durante a crise, foi uma corrida para as opções de venda - que, como o nome já diz, garantem ao investidor poder vender um papel por preço previamente combinado, ainda que no mercado à vista a cotação tenha despencado. "Em 20 anos de mercado, não vi nada parecido em relação à 'put'. Essa crise serviu para começar a popularizar esse segmento, incluindo operação de pessoas físicas", diz Eduardo Collor, grafista da Ativa Corretora.
'Put' é como os operadores chamam as opções de venda (que podem ser adquiridas ou repassadas), e 'call' são os movimentos relativos às opções de compra. A primeira representa cerca de 5% do mercado brasileiro de opções de ações, o que resulta em falta de liquidez. A venda é usada em momentos de baixa de mercado, para garantir uma proteção ao investimento, e por isso mais procurada por tesouraria de instituições financeira e gestores de carteira.
Se um investidor comprou uma ação a R$ 30,00, por exemplo, e quer garantir a venda a este preço, pode exercê-la mesmo que, com um movimento de baixa, o papel esteja sendo negociado a R$ 25,00 no mercado à vista.
O volume de opções exercidas é um bom retrato dessa mudança de estratégia do investidor. Em maio de 2008, quando o mercado ainda estava no azul, o exercício de venda somou R$ 17,59 milhões. Com a indicação de virada no mercado iniciada no mês seguinte, o montante saltou para R$ 342 milhões, galgando até os R$ 837,33 milhões exercidos em setembro. A série de junho a dezembro, a maior desde 2000 (período disponibilizado pela bolsa) superou o volume de exercícios de venda entre 2005 e 2007. "O volume aumenta quando os mercados estão em queda, já que funciona como um seguro", explica Collor.
Com a reversão de tendência do mercado acionário, o volume de opção de compra exercido no último vencimento, em 18 de maio, foi o maior desde maio de 2008. É resultado da realização de contratos considerando que o papel "garantido" tinha preço mais baixo que o valor à vista. "A bolsa fez a máxima histórica em abril e desde então estava em desvalorização, e o melhor exercício do período foi agora", ressalta José Góes, economista da WinTrade.
O crescimento não foi só no exercício, mas também no volume diário negociado neste mercado. "Essas operações derivam de um ativo objeto, e por isso acompanham seu desempenho. Se Vale e Petrobras retomam volume de negociação à vista, consequentemente o volume de opções dessas ações também fica elevado", explica Collor.
Isso porque o volume e a liquidez do mercado de opções de ações praticamente se restringe aos papéis das duas companhias. Usiminas, Telemar e Bradesco acabam tendo menor oportunidade de ganho porque há liquidez - e o investidor acaba tendo que exercer a opção, enquanto em Vale e Petro consegue fazer rolagem.
Segundo Clodoir Vieira, economista-chefe da corretora Souza Barros, a retomada de liquidez também se deve à volatilidade - já que no final do ano passado o movimento era de declínio constante. "O período também gerou oportunidades, mas o risco é muito maior. Hoje há uma preocupação se a bolsa já está em sua tendência de alta, por isso há investidores preferindo se posicionar no mercado à vista", pondera.
"Hoje o mercado de opções está com liquidez maior que no início da crise, já que muitos investidores estavam saindo do mercado para não perder o limite ou ver a opção virar pó no vencimento", reforça Góes. O volume diário de negociação de opções de compra em junho passado era de R$ 149,67 milhões, segundo a BM&F Bovespa. Neste mês de maio, a média diária está em R$ 253,59 milhões.
A recuperação, como ressaltam os analistas, segue o mercado à vista. No último pregão de 2008, o Ibovespa fechou em 37.550 pontos. Na sexta-feira, encerrou a 50.568 pontos.
Já o volume total de opções de índice, mais equilibrado entre compra e venda, é calculado pela bolsa a cada dois meses. De fevereiro para abril, mais que triplicou: de R$ 530,9 milhões para R$ 1,63 bilhão. A maior parte também é creditada às opções de compra - responsáveis por R$ 1,16 bilhão do total, contra R$ 303,6 milhões no período anterior. No auge da crise, em 15 de outubro de 2008, ninguém exerceu opção de compra.
(Maria Luíza Filgueiras - Gazeta Mercantil)