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O bullying é apenas um dos problemas

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Suzana Libardi *, Jornal do Brasil

RIO - O bullying no contexto escolar vem atraindo cada vez mais a atenção de professores, pais e psicólogos. Uma expressão de violência, o bullying são episódios em que crianças ou adolescentes cometem atos de violência física ou psicológica contra colegas, tais como: empurrões, beliscões, gozações, piadinhas, xingamentos e apelidos.

Não significa que todo ato dessa natureza seja bullying. Segundo Dan Olweus, que na década de 70 já estudava o fenômeno, para utilizar o termo é necessário que a ação agressiva sem motivação se repita com frequência entre os envolvidos; que haja intenção de provocar sofrimento, humilhação ou dor; e que haja uma relação de desequilíbrio de poder que dificulte a reação.

Vale destacar que o bullying não é a única forma de estudar as expressões de violência na escola. Talvez seja, atualmente, a forma mais difundida, mas não a única. Na França, as violências escolares são compreendidas por alguns estudiosos sobre o foco das incivilidades e, no contexto brasileiro, são diversas as pesquisas de pedagogos, psicólogos e sociólogos sobre os episódios de violência física e psicológica no espaço escolar.

O que nos interessa nesse momento é dizer que se compreendermos o bullying como uma das expressões da violência no contexto escolar, ele já não é mais novidade. A novidade que o conceito do bullying pode trazer à discussão da violência escolar é mais por uma necessidade de mercado.

A grande maioria das pesquisas que adota o conceito do bullying maneja os critérios como indicadores ou sintomas para se fechar o diagnóstico . Um dos impasses da perspectiva se concentra no fato de que a aplicação do bullyinganalisa a violência na escola com uma lente que foca exclusivamente as crianças ou adolescentes envolvidos.

Na maioria dos casos, a dinâmica psicológica de cada um dos atores envolvidos é usada como justificativa para explicar o porquê das agressões. Nesse caso, as intervenções sobre o bullying reforçam uma visão individualizante do mundo, já que vão definir quem é o agressor e quem é a vítima congelando essas figuras em posições antagônicas e destinando a elas um tratamento específico de concepção medicalizante.

Na medida em que oferecem uma resposta simplista a um fenômeno complexo e dinâmico, o bullying contribui para um movimento de resolução simplista das dificuldades nas relações interpessoais e alimenta as necessidades de mercado com a criação de produtos que vão desde cursos de especialização sobre o tema até consultas e tratamentos para as crianças e adolescentes envolvidos.

Existe a dinâmica psicológica de crianças ou adolescentes na produção dos episódios de violência escolar. Mas é preciso também atentar para os tratamentos que se dão a partir da adoção da perspectiva do bullying e dar visibilidade às outras problemáticas que são negligenciadas. Na realidade brasileira, e mais especificamente na realidade fluminense, adotar essa perspectiva para a análise das violências no espaço escolar parece uma opção que se distancia da complexa rede que corrobora para a produção da violência escolar.

Localizar nas crianças ou adolescentes todas as razões para a violência escolar significa, por outro lado, negligenciar o fato de que essas relações violentas refletem e atualizam no contexto escolar aquilo que alguns pesquisadores como Vera Maria Candau, vão chamar de cultura da violência.

Quando pensamos nas violências na escola como expressões da cultura da violência, não podemos investigar ou intervir no campo das violências na escola dissociada da violência presente na sociedade.

A relação entre a violência difundida nas relações e instituições sociais e a escola não se dá de maneira simples, já que a escola não se constitui só como reprodutora, mas produtora de violências. A complexidade da violência precisa ser levada em conta, pois não cabe a nós reduzirmos as questões, que não são apenas da ordem psicológica, mas também da sociedade que diferencia aquilo que é padrão do que não é e, portanto, é alvo de violência.

* pesquisadora do Núcleo Interdisciplinar de Pesquisa e Intercâmbio para a Infância e a Adolescência Contemporâneas (Nipiac)