A vocação e a vida eclesial

Dom Eugenio Sales *, Jornal do Brasil

RIO - Antiga e perene é a preocupação da Igreja com as vocações sacerdotais e religiosas. Sua atenção se volta não apenas para o aspecto numérico, mas também, e primordialmente, é dirigida a uma adequada educação, e esta não deve ser simplesmente identificada com aprimoramento intelectual.

Esse procedimento tem sua razão nas palavras do próprio Cristo. Ele levanta o problema, ao ver a messe grande e poucos os operários. Convida pessoalmente os apóstolos, forma-os para o exercício do sagrado ministério. Acima de tudo, dá-lhes o exemplo, sacrificando sua vida pela salvação da humanidade. Expressa, assim, uma característica que identifica, de maneira particular, todo aquele que se consagra a perpetuar, entre os homens, pela doação total, a missão do Mestre.

Ninguém é digno dessa honra. Faz-se mister o chamado especial de Deus. É um dom. E, portanto, gratuito, excluindo, repito, o direito de assumir esse papel sem a ele ser convocado. Recebo-o como ele é, ou rejeito-o. Se o apelo é pessoal, a sua identificação deve ser também eclesial: é a autoridade que reconhece uma autêntica vocação.

Todo aquele que se entrega livre e sem reservas a determinada causa, ela se torna a razão de ser de toda sua existência. Embora absorvido inteiramente, não se sente ferido em sua liberdade, pois não houve coação no convite. Qualquer restrição vem a ser uma rapina no holocausto (Is 61,8). Em consequência, o sacerdote ou religioso tem, na fidelidade ao Senhor Jesus, presente na Igreja, a nota essencial do serviço que presta. Mesmo conservando a dignidade de pessoa humana, abdica de tudo aquilo que contraria os rumos dados pela hierarquia, que o chamou em nome do Redentor. A obediência, ao pedir a imolação da vontade própria, das ideias pessoais, é corolário desse estado de vida.

Há quem julgue, erroneamente, que tal exigência fundamental e completa dificulta a opção dos jovens pela consagração no serviço da Igreja. A realidade, entretanto, é outra. O idealismo próprio dessa idade se alimenta do sacrifício, ao compreender a nobreza de sua motivação. Proceder diferentemente é debilitar os reclamos desse radical compromisso. Em vez de ajudar, contribui para as deserções. Daí o valor do celibato, pois é símbolo da disponibilidade de que no passado deram, e ainda hoje continuam a dar prova, inteiras gerações de sacerdotes da Igreja Católica.

Jamais uma alteração nas leis eclesiásticas, possibilitando a ordenação de homens casados, resolverá a escassez de clero.

A escolha divina se destina ao bem da comunidade. E esta é beneficiada. Em consequência, por necessitar da graça, compete ao candidato esforçar-se por abrir-se a ela. A gratuidade assim o exige. A importância dos ministros de Cristo para a própria sobrevivência da vida eclesial, segundo os desígnios ordinários da Providência, evidencia o valor da prece, a fim de que o chamamento divino continue, bem como seja ele aceito por um número correspondente às carências da sociedade.

Todos têm o direito de ter a indispensável presença do sacerdote e a valiosa ajuda de pessoas consagradas a Deus. Devem igualmente se esforçar para que o dom seja oferecido e também acolhido e conservado.

Por isso, no 4º Domingo da Páscoa, toda a Igreja Católica celebra o Dia Mundial de Orações pelas Vocações. Além da prece privada, a coletividade como tal implora esse favor divino.

A mensagem do santo padre para o Dia Mundial aborda outros meios indispensáveis à solução do grave problema da escassez de indivíduos inteiramente doados ao Cristo. Diz ele: O nosso primeiro dever é manter viva, através de uma oração incessante, esta invocação da iniciativa divina nas famílias e nas paróquias, nos movimentos e nas associações empenhados no apostolado, nas comunidades religiosas e em todas as articulações da vida diocesana. Devemos rezar para que todo o povo cristão cresça na confiança em Deus, sabendo que o 'Senhor da messe' não cessa de pedir a alguns que livremente disponibilizem a sua existência para colaborar mais intimamente com Ele na obra da salvação. Entretanto, por parte daqueles que são chamados, exige-se-lhes escuta atenta e prudente discernimento, generosa e pronta adesão ao projeto divino, sério aprofundamento do que é próprio da vocação sacerdotal e religiosa para lhe corresponder de modo responsável e convicto .

E continua o santo padre: Demos graças ao Senhor, que continua hoje também a convocar trabalhadores para a sua vinha. Se é verdade que, em algumas regiões, se registra uma preocupante carência de presbíteros e que não faltam dificuldades e obstáculos no caminho da Igreja, sustenta-nos a certeza inabalável de que esta é guiada firmemente nas sendas do tempo rumo à realização definitiva do reino por Ele, o Senhor, que livremente escolhe e convida a segui-lo pessoas de qualquer cultura e idade, segundo os insondáveis desígnios do seu amor misericordioso .

Um barco que se orienta erroneamente se desgarra e o porto de destino jamais será alcançado. O cristão que põe a correção sem dúvida, necessária da injustiça social, a deficiência das estruturas materiais, o pão, a casa, acima das necessidades espirituais de seus semelhantes está equivocado. Por isso, o assunto das vocações religiosas exige, por coerência com o Evangelho, uma prioridade. Resolvendo-o, ou diminuindo sua intensidade, contribui-se para solucionar um vasto espectro de carências, inclusive temporais. Eis o motivo pelo qual o papa Paulo VI instituiu esta comemoração e nós celebramos com alegria o 46º Dia Mundial de Orações pelas Vocações.

* Arcebispo emérito do Rio