Questão de saúde e não fronteiras

Laurie Garrett *, Jornal do Brasil

RIO - A primeira evidência da transmissão da gripe suína foi nos EUA em setembro passado quando um garoto de 10 anos no Texas foi infectado. Um segundo incidente que causou alarme também ocorreu nos EUA, em que uma gripe comum H1N1 desenvolveu a capacidade de resistência ao Tamiflu, primeira droga usada para combater isso.

O vírus afligiu dois indivíduos no sul da Califórnia e Texas no meio de março. Quem está no México deve, então, perguntar-se por que a América está apontando o dedo nós . É o mesmo que aconteceu em 1980, quando as pessoas chamaram uma forma particular de vírus da gripe de gripe espanhola, que na verdade passou pelo Kansas antes de afetar a Europa com movimentos de tropa durante a 1ª Guerra Mundial.

Não é bom falar de fronteiras. Antes de culparmos o México, devíamos saber que o México poderia fazer o mesmo contra nós. Houve evidência incomum de febre em março no México, mas nenhuma particular de gripe suína antes de abril. Nos EUA, também tivemos casos isolados e não demos muita atenção até virmos um enorme número de casos na Cidade do México e Nova York.

A gripe é mais contagiosa pré-febre, antes de as pessoas infectadas começarem a mostrar os sintomas. Muitos dos números no México e EUA estão faltando. Em Nova York achávamos que tínhamos um problema contido em uma escola no Queens. Mas a cidade tem muitos cidadãos sem seguro saúde que não vão ao médico só porque tiveram uma febre. Assim, é provável que estejamos perdendo alguns casos de pessoas que não procuraram tratamento, pelos custos da saúde ou o tempo que terão de se afastar do trabalho.

A OMS está cautelosa em dizer que a ameaça é mundial, porque significa dizer que todo o mundo tem de tomar os tipos de precauções que já estamos tomando nos EUA o que muitos países pobres devem achar difícil de adotar. Os dados que precisamos agora é quão transmissível e letal é o vírus. Outra pergunta seria por que é mais letal no México do que nos EUA.

Outro ponto relevante é o quão típico é ter uma febre em circulação com elementos genéticos de três espécies: pássaros, porcos e humanos; quão frequentemente isso tem sido visto e por quê? A resposta é que isso nunca aconteceu antes.

O primeiro caso de gripe suína ocorreu em setembro na América do Norte nos EUA e o indivíduo estava lidando diretamente com porcos. Também é importante saber sobre pássaros migratórios e se eles estão em proximidade de porcos ou humanos. No dia 20 de dezembro, divulgou-se um boletim sobre a existência de uma versão do H1N1 não tratável com Tamiflu. Se vemos uma recombinação com a forma resistente do medicamento é hora de se lançar um alerta pandêmico.

A maioria de todas as infecções e mortes ocorreu em jovens adultos e adolescentes. Por quê? No caso da África não é pergunta retórica quando se vê 20% da população adulta tem AIDS. A juventude é a prioridade do vírus.

Americanos estão mais bem preparados hoje do que antes do Katrina. Melhor planejamento, no entanto, não é um processo concluído. Não chegaram ao ponto de onde o nível de preparação tem metas estabelecidas pelo governo federal. Cada estado tem planos de desastre para gripe pandêmica, mas a saúde pública teve, de modo geral, um orçamento ruim, com ferramentas ruins.

* Laurie Garrett é pesquisador de saúde e membro do Conselho de Relações Exteriores (CFR).