A chegada de uma nova gripe

Stefan Cunha Ujvari *, Jornal do Brasil

RIO - Todos os anos o vírus da gripe, influenza, circula pelo planeta. Ora dissemina-se pelo Hemisfério Norte, ora pelo Sul. Os períodos do inverno favorecem sua disseminação. Chega ao Brasil em meados do ano.

A influenza sofre pequenas mutações que a torna novamente infectante no ano seguinte. Nosso sistema de defesa não reconhece o novo vírus mutante e, novamente, adoecemos pela gripe. Por isso, a vacina da gripe deve ser administrada todos os anos para as pessoas suscetíveis à forma grave da gripe.

Além desses casos de gripe anuais, o homem é surpreendido por epidemias mais violentas que se disseminam para outros países e continentes, com agressividade e mortalidade maior. São as pandemias.

A receita dessas pandemias está na formação de um novo vírus influenza diferente dos anteriores que o homem está habituado. Nesse caso, entram em cena outros animais. Uma das maneiras de surgir vírus novo ao homem é através do porco. Os vírus das aves e dos humanos podem infectar os suínos que por sua vez apresentam seus próprios vírus. Nos porcos pode ocorrer a mistura do material genético de vírus e formação de vírus influenza desconhecido ao homem.

Em 1918, surgiu a famosa epidemia espanhola . Não se sabe ao certo o local de origem do vírus dessa pandemia. Talvez seja nos Estados Unidos ou China. A doença espalhou-se pelo planeta e atingiu todos os continentes, exceto a Antártica. Matou mais de vinte milhões de pessoas. Foi causada pelo tipo H1N1.

Em 1957 cientistas reconheceram a segunda pandemia do século 20. Originou-se na China pelo vírus H2N2 e matou mais de um milhão de pessoas. Essa influenza foi formada pela mistura de fragmentos genéticos de vírus humano e das aves.

A terceira pandemia veio em 1968 pelo vírus influenza H3N2. Novamente foi o sudeste asiático que forneceu a pandemia que matou mais de um milhão de pessoas.

O mundo voltou os olhos para a Ásia desde 2003. A epidemia aviária causada pelo influenza H5N1 acometia o homem. Casos humanos mostravam a capacidade desse vírus das aves infectar humanos e, aguardávamos uma mutação que fizesse o vírus ser transmitido de homem para homem. Dessa forma nasceria a pandemia. Porém, de maneira surpreendente o México transformou-se no protagonista atual das preocupações.

Iniciamos essa semana com o alerta mundial da gripe suína. Provavelmente, nos porcos mexicanos, ocorreu o nascimento de um novo tipo de influenza desconhecido da imunidade humana, um vírus novo. Esse vírus da gripe suína mostrou capacidade de invadir e adoecer os homens. Pior, pelo número de casos, consegue passar de pessoa a pessoa pela tosse e espirro. A epidemia saiu da nação mexicana e se alastra para outros países e continentes. Surgiram casos nos EUA, Canadá e Europa e Ásia.

As medidas devem ser tomadas de maneira enérgica devido ao poder de disseminação. O vírus se propaga pela tosse e espirro. As mãos contaminadas levam a infecção para os olhos, boca e nariz. Por isso, devemos lavar frequentemente as mãos e evitar tocá-las nos olhos, boca e nariz. Pessoas doentes devem tossir ou espirrar em lenços, lavar as mãos e permanecer em casa para evitar a transmissão do vírus.

A ciência precisa de mais tempo para avaliar o quanto esse vírus é letal e transmissível. Estamos apenas no início da descoberta da epidemia.

* Stefan Cunha Ujvari é médico infectologista do Hospital Alemão Oswaldo Cruz de São Paulo e autor do livro A história da humanidade contada pelos vírus (Editora Contexto, 2008).