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Em nome de uma recepção mais humana

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Lúcia Klück Stumpf *, Jornal do Brasil

RIO - O trote estudantil é uma tradição na universidade brasileira. Para os calouros, passar pelo trote faz parte da comemoração pela conquista da aprovação no vestibular e representa um rito que facilita a aceitação no grupo social em que acaba de se inserir. Assim, trotes leves e em tom de brincadeira cumprem o papel de integrar veteranos e calouros. Por outro lado, não raro nos deparamos com casos de violência física e moral cometidas em trotes nas universidades. No último período, vários casos de abusos têm sido denunciados pela imprensa, em uma saudável campanha de combate à violência no trote. Mas será essa uma tendência dos dias atuais? Há alternativas para combater a violência e reforçar o intuito da integração? A União Nacional dos Estudantes (UNE) decidiu enfrentar esse debate.

Segundo o professor Paulo Denisar Vasconcelos, da Universidade de Santa Maria (RS), a origem do trote remete à Europa medieval, quando do surgimento das primeiras universidades. Nessas instituições, os veteranos eram separados dos calouros, aos quais não era permitido assistirem às aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos. Por razões profiláticas, os calouros tinham as cabeças raspadas e suas roupas muitas vezes eram queimadas.

Entretanto, no século 14 já é possível perceber que esta recepção havia se transformado em rituais aviltantes. Isso é observado nas universidades de Bolonha, Paris e, principalmente, Heidelberg, onde os calouros, reclassificados como feras pelos veteranos, tinham pelos e cabelos arrancados, e eram obrigados a beber urina e a comer excrementos antes de serem declarados domesticados . Aliás, o emprego da palavra trote remete ao trotar dos cavalos, que é um galope treinado. A ideia é justamente que os calouros (antes feras , hoje bichos ) devem ser domesticados . Portanto, qualquer ação praticada nos trotes do século 21 que se assemelhe a tais rituais são ações que nos remetem aos tempos medievais.

Como entidade representativa de todos os estudantes universitários incluindo os calouros! a UNE organiza e estimula uma recepção diferenciada aos que ingressam na universidade. No sentido de combater a onda de violência e apresentar perspectivas de como os estudantes universitários podem contribuir com o desenvolvimento do Brasil, participamos da organização do Trote Cidadão 2009. O objetivo dessa iniciativa é receber os novos alunos com ações de cunho social, com base no eixo 8 da plataforma 8 jeitos de mudar o mundo , criada pela Organização das Nações Unidas (ONU).

A ideia do Trote Cidadão surgiu em 1998, depois do trágico episódio da morte de um calouro de medicina da USP, em São Paulo. Este ano, a campanha pretende estimular a participação da juventude em projetos que possam contribuir para reduzir as desigualdades e promover o desenvolvimento do país. As sugestões de ações a serem desenvolvidas vão desde a realização de campanhas de doação de livros para instituições comunitárias e bibliotecas até a organização de grupos de voluntários para atividades em prol da saúde materna e planejamento familiar. Entretanto, cada grupo de estudantes e entidade estudantil tem liberdade para apresentar propostas de projetos que se encaixem no eixo de estimular a participação da juventude em ações que promovam o desenvolvimento nacional.

Os veteranos que se interessarem em promover o desenvolvimento no lugar da violência, devem procurar informações sobre o Trote Cidadão na página da UNE (www.une.org.br).

Além disso, a UNE pretende receber os estudantes em sala de aula com um amplo debate acerca do projeto de Reforma da Universidade proposto pela entidade, aprovado neste mesmo 12º Coneb, que reuniu mais de dois mil centros e diretórios acadêmicos (CAs e DAs) de todo o Brasil. Nossa palavra de ordem é democratizar a universidade brasileira em diversos aspectos: democratizar o acesso à universidade, suas estruturas acadêmicas e currículos, e também a participação da comunidade nas decisões dos rumos da instituição. E os calouros, cheios de perspectivas e desafios a serem enfrentados, são peça fundamental na engrenagem do movimento estudantil. Devem participar com afinco deste debate e dar continuidade às lutas quando os veteranos deixarem a universidade. A UNE dá as boas vindas aos calouros e os conclama a participarem do movimento estudantil, pois são muitas as batalhas que temos por vencer e bastantes os debates por construir. A começar pelo combate à onda de trotes violentos que voltam a assombrar nossas universidades.

*Presidente da UNE