Mestre Hélio Gracie, modelo de conduta, um guru espiritual

João Alberto Barreto*, Jornal do Brasil

RIO - Helio Gracie foi meu grande mestre, segundo pai e modelo de vida. Com ele tive uma formação educacional, técnica e de ordem moral e ética. Um homem muito disciplinado, que sempre defendia os princípios da humildade. Me tornei campeão de jiu-jítsu, professor e mestre de psicologia por causa dele. Era meu guru, meu mestre espiritual.

Eu o conheci quando tinha 15 anos. Naquela época, um baiano chamado Caribé desafiou o Helio, mas ele não tinha um local para a luta. Meu pai, que era diretor do Instituto de Surdos, em Laranjeiras, havia construído um ginásio lá e ofereceu o local aos Gracie. Foi a primeira vez que vi uma luta de jiu-jítsu na vida. O Helio ganhou fácil.

Depois disso meu pai o convidou, junto com o irmão Carlos, para jantarem na nossa casa. O Carlos viu o meu físico, disse que eu era forte e me convidou para treinar com ele. Na época, os treinamentos dos Gracie ainda eram na casa do Helio, no Flamengo. As aulas eram freqüentadas só pela elite, tinham apenas alunos ricos.

Comecei a ter aulas com o Carlos, mas os dois costumavam fazer desafios entre eles também, entre os alunos de cada um. Houve um momento em que comecei a treinar com os alunos do Helio e passei a levar vantagem. Então ele desafiou o Carlos. Disse que traria um aluno, conhecido como Japonês, campeão de Teresópolis, para lutar comigo. Apostavam dinheiro.

Eu aceitei o desafio, mesmo tendo apenas três meses de luta. Empatei com o Japonês e o Helio não acreditou. Quinze dias depois, novo desafio, dessa vez em Teresópolis, e eu venci. O Helio se encantou por mim e me tirou do Carlos. Passou a me treinar.

Logo depois meus pais foram morar em São Paulo e ele me convidou para morar com ele onde fiquei por 10 anos. Ele já havia aberto a academia na Avenida Rio Branco, no Centro, que ocupava um andar inteiro do edifício Iracema e que ficou conhecida como Kodakan. Fiquei treinando lá, onde treinava e dava aulas.

Eu e mais quatro lutadores dormíamos nos ringues e nos tatames. Fiz parte da primeira equipe da família Gracie e fui considerado pelo Helio o maior professor da academia.

O Helio me ensinou a arte do jiu-jítsu. Toda a equipe seguia o que ele dizia: O grande lutador é aquele que não perde seus controles emocionais . Ele era antiviolência.

Não aceitava excessos de pancadas e gostava que nós vencêssemos por finalização. Não éramos orientados a nocautear e machucar o adversário, era para vencer de forma equilibrada.

Ele era muito técnico e venceu várias lutas assim, sempre com adversários mais fortes. Era um homem franzino, de 63kg, que lutou com pessoas que tinham o dobro do seu peso para mostrar a grandeza do jiu-jítsu, do vale-tudo.

O Helio sempre foi um educador. Podia não ter experiência acadêmica, mas era muito inteligente, determinado, tinha uma psicologia nata, orientações que elevavam o nosso nível de autoconfiança de maneira fantástica. A vida dele e o jiu-jítsu eram uma coisa só.

O Helio foi a fonte do desenvolvimento do jiu-jítsu e do vale-tudo. Não sei por que o governo brasileiro nunca deu a atenção devida a ele. Foi um ícone. Criou um sistema de defesa pessoal que não existia. Foi ele que levou o jiu-jítsu brasileiro para o mundo inteiro. Tudo o que ele ensinou está espalhado no planeta. Divulgou e difundiu o que tinha de melhor na arte do vale-tudo.

Num dos últimos momentos de vida dele, Helio disse que quando morresse queria ser enrolado num cobertor, porque não queria ser lembrado daquela maneira e sim como um grande homem, um grande mestre. E é isso que ele foi. Devo tudo a ele.

* 73 anos, discípulo de Helio Gracie