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Ordem e civilidade no Maracanã

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Editorial , Jornal do Brasil

RIO - Que os adeptos do consumo de álcool e os incomodados em geral sejam perdoados, mas são inquestionáveis os argumentos em defesa da lei seca decretada pelo prefeito Eduardo Paes, posta em prática no jogo entre Flamengo e Friburguense, no domingo, no Maracanã. A decisão da prefeitura do Rio, enfaticamente aplaudida neste mesmo espaço no último sábado, mostrou-se bem-sucedida: o batalhão de fiscais, guardas municipais e policiais militares garantiu que os torcedores cumprissem devidamente a proibição do consumo de bebidas dentro e no entorno do Maracanã duas horas antes, durante e duas horas depois da partida. Estiveram presentes ao jogo mais de 34 mil pessoas, que ajudaram a protagonizar uma lição de civilidade. Não foram raros os que aplaudiram a idéia, sobretudo aqueles assustados com a repetição de cenas de violência explícita nos estádios, amplificadas pelas doses a mais de álcool. Coincidência ou não, a 18ª Delegacia Policial (na Praça da Bandeira) não registrou ocorrências relativas ao domingo esportivo.

Foi um bem-vindo e imprescindível choque de ordem no templo do futebol, contemplado, inclusive, com o veto à profusão de ambulantes que costumam abarrotar os arredores do Maracanã. Não sem enfáticos protestos. Conforme o relato contido em reportagem publicada ontem no Jornal do Brasil, a estréia da medida dividiu os torcedores, mas as reclamações se repetiram numa só direção: os pregadores das bebidas identificam, por exemplo, uma indevida intromissão das autoridades na liberdade dos indivíduos. Protestam contra eventuais perdas financeiras de comerciantes. Prevêem ações na Justiça contra o decreto.

Apesar da gritaria das gralhas habituais, convém reforçar alguns argumentos suficientemente capazes de alicerçar o decreto de Eduardo Paes. Trata-se, antes de mais nada, de uma resposta às exigências internacionais da Fifa e uma antecipação aos argumentos em defesa do Rio para tornar-se sede da Olimpíada de 2016. Como sublinhou o secretário de Ordem Pública, Rodrigo Bethlem, a medida é um adicional que nos coloca em vantagem . Há mais. O decreto permite, acima de tudo, que os estádios de futebol voltem a ser vistos como ambientes pacíficos. O caso mineiro, onde a lei seca foi adotada com sucesso, é exemplar: os índices de violência registrados nas delegacias da região do estádio do Mineirão, em Belo Horizonte, desabaram mais de 70% depois de adotada a proibição.

Impedir a convivência de bebidas alcoólicas em grandes aglomerações significa, portanto, abrir a trilha da sensatez, da ordem e da paz. Em boa parte do mundo civilizado, o consumo do álcool é restrito em grandes eventos. Multidões são, por si, um convite ao risco. A advertência estampada no decreto ajuda a eliminar as zonas de sombra que costumam confundir a liberdade individual de optar por beber ou não com a desordem coletiva trazida pelo álcool para não citar também os gigantescos riscos impostos pelo casamento entre trânsito e bebida.

A reclamação dos freqüentadores do Maracanã é compreensível embora inconsistente. Modificar hábitos de longo data exige rigor, campanhas contínuas de conscientização e paciência. De novo recorrendo às declarações de Bethlem, vai ser difícil mudar um costume. Mas as previsíveis dificuldades não podem transformar-se em barreiras intransponíveis.