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Carneiro se reelege em Salvador

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José Pacheco Maia Filho, Gazeta Mercantil

SALVADOR - Dessa vez não houve surpresa, nas urnas baianas. Confirmou-se o que vinha sendo sinalizado nas pesquisas e o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB), com 80,76% das urnas apuradas, reelegeu-se, em Salvador, com dos 58,48 % votos. O candidato petista, deputado federal Walter Pinheiro, derrotado com 41,55%, já tem o nome especulado para assumir uma secretaria no governo de Jaques Wagner (PT), possivelmente a de Relações Institucionais. A vitória peemedebista fortalece o ministro da Integração Nacional, Geddel Vieira Lima, e abala os planos para a reeleição de Wagner em 2010, exigindo dos petistas mais cuidado na articulação política.

A disputa do segundo turno para a prefeitura de Salvador entre João Henrique e Walter Pinheiro abalou a aliança do PMDB e PT na Bahia. Os peemedebistas sob o comando do ministro Geddel Vieira Lima, depois do apoio à eleição de Jaques Wagner, em 2006, contavam com a recíproca agora, em 2008. Isso não aconteceu, com a decisão petista de lançar candidatura própria, principalmente depois de divergir do posicionamento do prefeito no encaminhamento e aprovação do Plano Diretor e de Desenvolvimento Urbano (PDDU) da cidade, no final do ano passado.

- Estiveram no governo por mais de três anos e, na última hora, decidiram nos abandonar - comenta o presidente do PMDB baiano, Lúcio Vieira Lima, irmão de Geddel.

O comportamento foi tachado de traição pelo prefeito João Henrique, que, durante a campanha, sempre apontava a incoerência do adversário por criticar um governo em que tinha participado "até os 45 minutos do segundo turno".

Se, no primeiro turno, algumas farpas foram trocadas entre os dois candidatos, na etapa final, os ataques foram freqüentes, chegando a atingir o governador Jaques Wagner, que depois de, no primeiro turno, apoiar três candidatos - além de João e Pinheiro, o tucano Antonio Imbassahy - na reta final se engajou intensamente na campanha do correligionário.

- Estranhamente o PMDB e o próprio João Henrique entraram num processo, na minha opinião, de agressão, e eu tive de responder, porque, afinal de contas sou governador, e tenho que deixar bem claro para as pessoas que eu gosto de respeitar e ser respeitado", disse Wagner, admitindo, no entanto, que não havia desentendimento com Geddel e que voltaria a conversar com ele nesta segunda-feira.

Geddel, por sua vez, também procurou destensionar as relações com Wagner:

- Terminada a eleição, naturalmente, o governador, que é o líder político do Estado, haverá de tomar as iniciativas de diálogo e de entendimento que busquem superar eventuais divergências próprias do calor eleitoral, próprias de um embate tão acirrado como foi este.

O ministro da Integração Nacional mantém, no entanto, a postura de autonomia peemedebista:

- Nós do PMDB estamos abertos ao diálogo, mas sempre com a noção de que fizemos uma aliança, não fizemos uma fusão. O que significa dizer que é legítimo e justo que o PT tenha a sua identidade e o PMDB preserve a sua.

A eleição de Salvador aproximou o PMDB do Democratas. O apoio do deputado federal Antonio Carlos Magalhães Neto foi decisivo para a vitória de João Henrique, que terminou o primeiro turno com 30,9% dos votos e acabou vitorioso com 58%. ACM Neto teve 27% no primeiro turno e possivelmente foi o fiel da balança.

Ontem, ACM Neto comemorava a vitória do novo aliado.

- Ganhamos a eleição. Hoje é dia de comemoração - dizia, evitando revelar como será a participação do DEM no novo mandato de João Henrique. - Quem vai determinar o nível de participação é o prefeito.

Para Neto, o resultado em Salvador sinaliza que a política da Bahia está aberta e tudo pode acontecer em 2010, que será outra história.

- Há um ano, ninguém imaginava que o Democrata estivesse junto com o PMDB - comentou.

Na avaliação do cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, o PT deve construir um espaço claro de oposição para ser fiel às urnas. Para ele, como no conjunto do estado, as eleições de Salvador apontaram a consolidação de três forças políticas: PT, PMDB e DEM.

- Nos anos 90, havia uma situação hegemônica do carlismo, grupo político do senador Antonio Carlos Magalhães (PFL), que depois se tornou bipolar com a união das oposições e agora vamos ingressar na próxima década, com a possibilidade de três projetos majoritários para 2010 - diz.

Segundo Dantas Neto, ainda não é possível afirmar se haverá união entre duas das três forças contra uma ou as três terão candidaturas próprias, com os acordos sendo firmados no segundo turno. Para ele, as eleições municipais não são o fator principal para a composição dos campos políticos nas eleições de 2010:

- Existem outras variáveis, a exemplo do desdobramento das relações do governo estadual com o legislativo, os partidos e as prefeituras, além é claro da questão nacional.