Jornal do Brasil

CadernoB - Ideias

Leituras feministas durante a quarentena

Jornal do Brasil LÍDICE LEÃO, lidicele@hotmail.com

Macaque in the trees
Capa da primeira edição de Madame Bovary (Foto: CPDOC JB)

No início deste ano fiz uma lista de livros escritos por mulheres como dicas de leitura para o decorrer de 2020. No mesmo texto, prometi continuar as sugestões em um artigo futuro. Os dias e meses começaram a correr de forma ligeira e ocupada por fatos cotidianos da política – a maioria até mesmo inacreditável, quando vinda do centro do poder federal –, da cultura – que resiste, a despeito dos mandantes incultos – e dos incontáveis compromissos de cada um de nós. Assim, a minha promessa de escrever sobre o restante da lista seguia adiada. Retomo agora, em tempos de pandemia e isolamento social.

Não faltam bons livros escritos por mulheres para pensarmos o feminismo nosso de cada dia. E já que falamos do conceito, é fundamental que entendamos a história do movimento, contada por quem ajudou a escrevê-la. “50 anos de feminismo – Argentina, Brasil e Chile”, da Edusp, traz um panorama das militâncias e conquistas nos três países até 2017. Organizado pelas sociólogas Lúcia Avelar e Eva Blay, criadora do primeiro curso de graduação e pós-graduação sobre a mulher na Universidade de São Paulo, onde é professora titular sênior, é resultado de um projeto temático de pesquisadoras dos três países.

O histórico dos feminismos na publicação começa lá no fim do século XIX e início do século XX, com as primeiras reivindicações das mulheres na Argentina, por exemplo, como a remoção da inferioridade civil, a obtenção de mais educação, assistência às mães carentes, além da cidadania por meio do sufrágio. Nos três países, as mulheres tiveram direito ao voto no início da década de 30. Como a própria Eva Blay analisa, “o feminismo se diferenciou em vários feminismos ao longo do tempo e no espaço”. Nos últimos cinquenta anos, o conceito passou a incorporar as várias dimensões das relações humanas, a intimidade, a vida privada, a subjetividade. E é justamente no entendimento das relações intersubjetivas entre mulheres, e dessas mulheres com os grupos em que vivenciam suas experiências, que reside o meu projeto de pesquisa, orientado pela psicanalista e professora titular do Instituto de Psicologia da USP, Maria Inês Assumpção. É realmente fascinante pensarmos que os feminismos são movimentos sociais protagonizados por sujeitos (mulheres) que, por estarem em conjunto, participam e experimentam uma realidade específica ao grupo, sendo herdeiras e, ao mesmo tempo, agentes dos fatos em que estão inseridas, tanto de forma consciente, quanto – e principalmente – inconsciente.

Já que estamos na psicanálise, o segundo livro da lista é “Deslocamentos do feminino”, da jornalista e também psicanalista Maria Rita Kehl. Para as mulheres que querem entender o funcionamento da subjetividade feminina, a obra analisa a construção do conceito “feminino” no decorrer dos anos e da formação do papel das mulheres na sociedade. A autora explica que não se trata de um livro sobre a história das mulheres, embora tenha precisado passar por um pouco de história, mas sim uma obra que tenta entender como se constituíram e se fixaram os discursos sobre as mulheres e a feminilidade na era moderna, na época do advento da psicanálise. O livro também faz uma análise de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, do ponto de vista de como a sociedade oitocentista enxergava a mulher e o papel dela nos lares, ao lado do marido e no contexto cultural da época, em que à mulher era praticamente “proibido” buscar a ascenção social ou ansiar por uma vida diferente da que o marido a proporcionava.

Para não dizer que não falei de romances, encerro este artigo com uma tetralogia que vai rechear deliciosamente os dias de quarentena das mulheres – também sei de alguns homens que foram capturados pelo enredo: a história de Lenu e Lila, dos seis aos setenta anos (ou sessenta, confesso que não me lembro exatamente). É uma vida inteira de amizade, intrigas, dramas e suspense entre duas mulheres italianas e suas famílias, amores, amigas e amigos. É de emocionar, chorar, rir e vibrar ao lado das personagens. Houve uma polêmica sobre a identidade da autora, que assina como Elena Ferrante. Digo “houve” porque não acompanhei as investigações mais recentes sobre esta polêmica. Teve até mesmo quem defendesse a hipótese de o romance ter sido escrito por um homem. Refuto bravamente; homem nenhum conseguiria mergulhar de forma tão profunda na subjetividade feminina.

Ficamos nesses três livros por hoje. Como vamos seguir a ciência e não o mandatário irresponsável, teremos muita quarentena pela frente para livros e mais livros.

Lídice Leão é jornalista, pesquisadora e mestranda em Psicologia Social pela Universidade de São Paulo