Jornal do Brasil

CadernoB - Ideias

Laurentino Gomes: "A Bienal não é só para vender livros, é uma experiência emocional"

Autor de 'Escravidão' fala sobre sua relação com os leitores: "me dá uma dose de energia pra continuar escrevendo"

Jornal do Brasil DANIELA CALCIA, daniela.calcia@jb.com.br

Em 2007, Laurentino Gomes chegava à Bienal para lançar um de seus best-sellers, '1808'. Ele trabalhava como repórter da revista "Veja" e ainda tinha dúvidas sobre sua carreira como escritor. "A Bienal não é só pra vender livros, é uma experiência emocional. Cheguei aqui em 2007, e lembro exatamente o momento em que a minha vida mudou definitivamente. Eu estava lançando o livro '1808', e ninguém me conhecia, eu trabalhava na revista "Veja" e estava superinseguro sobre se o livro iria vingar, aí me lembro que meu editor na época, Paschoal Soto, uma hora me puxou e falou: 'Olha sua pilha de livros'. E eu via as pessoas pegando o livro e indo para o caixa. Perguntei: 'Paschoal, o que significa isso?' Ele respondeu: 'Sua vida mudou a partir deste momento, você é um best-seller'. Achei engraçado, pensei que ele estava querendo massagear meu ego, mas foi de fato o que aconteceu", relembra.

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Autor de 'Escravidão', Laurentino Gomes comemora o sucesso da obra na Bienal (Foto: Daniela Calcia/Jornal do Brasil)

E a previsão se tornou realidade! Oito meses após o lançamento na Bienal do Rio, Laurentino pedia demissão da revista em que trabalhava há 22 anos. "Assumi a carreira de escritor e agora estou no meu quinto livro. É impressionante observar como tem na Bienal um público absolutamente fiel, que te acompanha. As pessoas mostram foto que elas tiraram na Bienal de 2007, e contam que voltaram em 2009, 2011, 2013, 2015, 2017, e já combinam de se encontrar em 2021". Para o autor, os fãs são sua maior inspiração. "É como se fosse uma dose impressionante de energia que eles infundem no autor, pra que ele continue trabalhando. A Bienal me dá uma dose de energia pra continuar escrevendo", emociona-se o autor que foi por seis vezes ganhador do Prêmio Jabuti de Literatura, e é membro titular da Academia Paranaense de Letras.

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A professora de história Cristina Andrade pretende usar o conteúdo do livro 'Escravidão', de Laurentino Gomes, em sala de aula (Foto: Reprodução do Facebook)

Uma dessas fãs é a professora de história Cristina Andrade, que leciona há 29 anos na rede pública, em São Gonçalo (RJ). "Sou fã do Laurentino desde que ele lançou '1808', mas é a primeira vez que encontro com ele, estou muito emocionada". Cristina, como tantos outros professores, adquiriu 'Escravidão' e pretende usar o conteúdo da obra em suas aulas. "Ele me disse que muitos professores estão vindo e comprando o livro dele, até porque a escravidão é um fato histórico, e para nós professores, quanto mais conhecimento adquirimos, mais enriquecemos as aulas e fazemos com que as pessoas falem menos bobagens. A gente tem que reforçar que a escravidão é uma coisa horrível". Para a professora, a escravidão ainda não acabou. "Está velada, a gente percebe ainda que pessoas utilizam da sua posição social, de ser maior do que o outro, acho que isso é péssimo", finaliza.

O escritor retribui o carinho do público: "É muito interessante essa relação entre o autor e o leitor, é visceral e mediada pelo livro! O livro é um objeto de muita intimidade, as pessoas levam para a cama e dormem com ele, levam para praia ou piscina, então, quando elas encontram o autor, é como se fossem amigas de infância. É interessante as cenas que eu vejo na Bienal, tem gente que chora, que fica tremendo quando te abraça para tirar uma foto, então é uma coisa que vai além da mera escrita.

Laurentino relembra a emoção de ter lançado o livro no Instituto Pretos Novos, na Gamboa, região Central do Rio, conhecida como 'Pequena África' na época da escravidão. "Fiz um lançamento muito simbólico, na Gamboa, foi muito importante porque lá tem um grupo muito qualificado de historiadores e pesquisadores. Ali foi mais do que um lançamento, foi um memorial. Eu tinha consciência de que estávamos em cima de um cemitério dos meus personagens, que estão no meu livro e estavam ali enterrados. Até hoje já foram desenterradas seis mil ossadas na região do Cais do Valongo, e apenas duas ou três dezenas desses mortos foram identificadas e estão nas paredes dos Pretos Novos. Enquanto eu falava da escravidão, era como se eles estivessem observando, para mim foi uma experiência muito forte". Laurentinho fará outro lançamento, dessa vez com um encontro de quilombos na Paraíba. "Vou reunir uma série de quilombos ainda da época dos séculos XVII e XVIII, da Serra da Borborema. Vamos lançar o livro numa igreja chamada Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, que era uma irmandade de escravos na cidade de Areia".

Para Laurentino, o sucesso de público na Bienal mostra a força que o livro tem: "O livro tem um grande poder de transformação, o livro é importante e é elegante. Ele transforma tudo o que encontra pela frente, como o leitor, o próprio autor, o editor e o distribuidor. O que a gente vê aqui na Bienal é impressionante, fico muito emocionado e feliz. Isso faz acreditar que o Brasil tem conserto e que pode dar certo. Quando vemos essa festa ao redor do livro, com pessoas que ficam entre duas e três horas na fila para conseguir um autógrafo e cumprimentar o autor por 30 segundos, é muito interessante. A gente tem que levar isso muito a sério", finaliza.