CRÍTICA - Filme: 'Luta de Classes'. Quando as convicções estão acima do diálogo

Cotação: 3 estrelas

Em “Luta de Classes”, de escrito por Michel Leclerc e Baya Kasmi e dirigido por Leclerc, o tema do momento está em questão: como conviver com as diferenças? Sofia (Leïla Bekhti) e Paul (Edouard) se mudam para uma pequena casa suburbana. Ela, uma advogada de origem norte-africana, e ele, baterista de punk-rock com ideais anarquistas, cultivam princípios humanitários e convicções políticas muito sólidas. Sofia, por exemplo, não usa joias de ouro porque isso representa a exploração do trabalho de crianças em minas ao redor do mundo.

O casal quer dar ao para seu filho Corentin (Tom Lévy) uma educação de princípios e deseja simplesmente que ele seja uma criança feliz e consciente do mundo em que vive. O menino estuda na escola primária local, mas, quando todos os seus amigos abandonam a escola pública e seguem para outra instituição, Corentin se sente solitário. A questão é como manter fidelidade à escola pública dentro das convicções do casal quando o seu filho agora se sente um excluído lá por pertencer a uma família mais abastada que as outras que permaneceram nessa escola? Sem os colegas de antes, Corentin passa a ser tratado como um “privilegiado” social pelos meninos, muitos deles de origem imigrante.

Crianças não fazem diferença entre classes sociais, cor da pele ou religiões. É a criação dos adultos que estabelece esses padrões para que as crianças sigam. O roteiro traça muito bem a virada social de Corentin na escola. Antes ele era igual, agora ele é o diferente, ele é o excluído, mas não pelos princípios das crianças e sim pelas ideias que os pais delas estabelecem como razão.

Sofia e Paul são um casal inter-racial que reflete, não só a França, como a Europa atual que a duras penas resiste mesmo com a onda nacionalista que ronda o continente. Mas dentro de seu próprio universo e da escola do filho, como lidar com essa exclusão do menino? A falta de diálogo é o ponto que o filme busca explorar. Todos falam muito, de todos os lados, mas a difícil tarefa de dar espaços e entender as necessidades do outro fica de lado pela crença de que as crianças não podem elas mesmas resolver seus impasses. A proposta é mostrar que em qualquer sistema de educação há responsabilidades, mas nada pode sobrepor o ouvir e as atitudes espontâneas de humanidade.

O cinema francês contemporâneo tem rendido desde “Entre os muros da escola” ótimos aspectos da sociedade, em especial sobre o tema Educação. Em “Luta de Classes”, um véu muçulmano pode salvar vidas independentemente das motivações que levam uma mulher a vesti-lo; o serviço público pode oferecer inúmeras oportunidades que terão resultado em algum momento; e a música pode representar a essência de uma integração de diferenças quando ouvimos em dois momentos de um filme francês, a brasileira “Ó abre alas”, de Chiquinha Gonzaga” ou a argentina “Libertango”, de Astor Piazzolla.

* Especial para o Jornal do Brasil.