Jornal do Brasil

CadernoB - Cinema

CRÍTICA - Filme: Coringa, um circo de rins, fígados e esperanças esvanecidas

Jornal do Brasil RODRIGO FONSECA*, cadernob@jb.com.br

Macaque in the trees
Cartaz do filme 'Coringa' (Foto: Reprodução)

Dois longas-metragens estão em cartaz na Gotham City em que Arthur Fleck, aspirante a Jerry Lewis de beira de esquina, transforma-se num estandarte do pavor vestido de palhaço: “Um tiro na noite” (“Blow out”), de Brian De Palma, e “As duas faces de Zorro” (“Zorro, the gay blade”), com o Didi Mocó George Hamilton. São indícios de que estamos no ano de 1981, momento histórico no qual o filósofo francês Jean Baudrillard (1929-2007) passa o pop (sobretudo o dos EUA) em revista para entender o que seus colegas Arnold Toynbee e Jean-François Lyotard chamaram de Modernidade Tardia, ou, para os íntimos, pós-modernidade, um animal de plumas, com hidrofobia terminal.

Essa tal de pós-modernidade é a gênese do Coringa que Joaquin Phoenix divinamente constrói... algo bem diferente do retrato do vilão de HQs composto pelo cartunista Jerry Robinson em 1940... e bem distante do retrato camp, afetadíssimo, dele feito pelo ator Cesar Romero no seriado do Homem-Morcego para a TV, nos anos 1960. Ali tínhamos o Moderno... algo calçado por um tratado, um paradigma, um manifesto... no caso, a noção de que o Bem vence o Mal e espanta o temporal. Aqui, em 2019, no longa-metragem que estreia nesta quinta-feira, 3 de outubro, diretamente para a eternidade, não há embasamentos éticos metidos a estéticos. Há apenas sinais de desaparição, da atomização dos cintos de segurança ideológicos que mantinham as aparências de controle e de harmonia entre as civilizações.

Agora, isso acabou, pela mesma lógica de que falava Baudrillard, nos anos 1980: “Deus não vai sumir pela escassez e sim pelo excesso, pela proliferação desmedida, pela reprodutibilidade”. A profecia do bruxo filósofo de “A transparência do Mal” deu em “Joker”, de Todd Phillips. Na era Trump, o Deus da caridade, da inclusão, do respeito sumiu pelo uso vão de seu santo nome em programas de TV, de streaming, de terrorismo midiático. Deus aqui deve ser encarado como um sinônimo para “valores” de dignidade, do Humano. Valores que Fleck vai perdendo a cada cena da produção Warner Bros. Pilotada pelo cineasta Todd Phillips.

Há um lastro de glória (mas também de precipício) no Coringa dele. Onze anos depois de Christopher Nolan ter usado os quadrinhos para produzir a mais sombria alegoria sobre a era Bush e o desamparo moral do século XXI, em “Batman – O Cavaleiro das Trevas”, o Yorick de Gotham City volta a aprontar das suas e nos dá o que pode ser definido como um estandarte do descontrole político, coroado com o Leão de Ouro do Festival de Veneza. A vitória de “Coringa” no gosto e nas reflexões do júri chefiado pela diretora Lucrecia Martel, da Agentina (de “Zama”, “O pântano”), coroa um tipo de cinema pautado por uma artesania no limite da excelência. E coroa também o dito “cinema de gênero”, instância de diálogo direto com as plateias que troca o conceito pelo pragmatismo. Venceu um filão – o filme de HQs, mais adulto e alarmista do que os da Marvel Comics – que hoje põe a comida na mesa do cinema. Mas que também traduz todas as formas de relacionamento afetivo de uma contemporaneidade viciada em redes sociais, entorpecida na alteridade digital. O Coringa é o produto da desatenção, faça não.

Num gesto de coragem e argúcia, Lucrecia Martel e seus colegas jurados - formado pelos realizadores Paolo Virzì, Tsukamoto Shinya e Mary Harron; o historiador e crítico Piers Handling; o diretor de fotografia Rodrigo Prieto; e a atriz Stacy Martin – deram um olé no Grande Irmão das patrulhas moralizantes e coroaram uma narrativa que atravessa a fábula para construir uma caricatura de nossa falência ética.

O cômpito geral de acertos de Lucrecia & cia. foi perfeito, a começar pelo efeito fênix no brio dos thrillers decalcados de BDs. Estamos diante de um momento do cinema no qual as narrativas são idealizadas como grandes sagas. E a saga da DC é sombria, trevosa. Apesar de ter trocado sua carreira como best-seller das HQs por falácias do tipo “Gasto mais com drogas do que com a educação dos meus miúdos”, o inglês Alan Moore deu à indústria pop alguns legados insofismáveis, como as minisséries “Watchmen” (já, já na TV, em forma de série), “V de Vingança”, “Do Inferno” e um dos melhores diálogos da cultura nerd, evoca neste sábado em Veneza, ao fim da projeção do monumental “Joker”. Em “The Killing Joke”, graphic novel de sua lavra, desenhada por Brian Bolland, Moore escreve uma cena em que o Coringa toma uma sova do Batman, na paga pelo crime de aleijar a Batgirl Barbara Gordon e torturar o comissário de Gotham City. Na pancadaria, o Palhaço do Crime solta uma gargalhada de Arlequim que atiça a curiosidade do Morcego. Ele interrompe os catiripapos e pergunta: “Tá rindo de quê?”. E o Coringa: “Lembrei-me de uma piada. Dois malucos fogem de um hospício. Um pula o muro. O outro fica parado, por medo de altura. O que pulou propõe: “Eu tenho uma lanterna. Vou acendê-la. Aí basta você atravessar o facho de luz para chegar até aqui”. O interno louco medroso nega: “Não vou. Vai que você apaga a lanterna no meio da travessia”.

Gargalham os dois, uma gargalhada que Jean Baudrillard já apontava em seus escritos filosóficos como “a medida do desamparo dos novos tempos”. Nas telas, essa risada dos personagens celebrizou o fim da Era dos Extremos... o fim do século XX. O patrimônio de certezas daqueles 100 anos marcados por duas grandes guerras ficou para trás e deu lugar a um picadeiro digital não mais binário, de Bem e de Mal, no qual o mestre de cerimônias é o Coringa. Ele é a síntese das nossas irretrocedíveis improbabilidades. Um mestre que tomou para si o felino dourado de Veneza, que viveu uma premiação antológica. O reconhecimento dado ao trabalho da Warner/DC amplia a relação dos grandes festivais do mundo com o varejão das plateias, num ano em que os grandes eventos competitivos do cinema coroaram trama de gênero.

“Parasite”, de Bong Joon-Ho, a Palma de Ouro de 2019, é uma comédia azeda que põe em vísceras as podridões do social. E “Grâce à Dieu”, o Urso de Prata de Grande Prêmio do Júri de Berlim, nada mais é do que um thriller político nos moldes Costa-Gavras, só que de batina. O que acontece é que “Coringa” usa tudo que seu gênero lhe dá num diapasão do excesso, mas um excesso que procede e se faz necessário.

Há um momento crucial, banhado a elipse, em “Joker”, na qual um papo do vilão com uma suposta psicóloga ensaia um diálogo parecido com esse de Alan Moore. Mas fica na intenção. Não é um filme-decalque de uma BD específica. É mais do que isso: Todd Phillips nos deu uma investigação sobre a desmesura da falta de empatia. Algo bem perto do que seu produtor, Martin Scorsese, alcançou, nos anos 1990, com “Cabo do Medo” (1991). Só que este, o brilhante “Cape Fear” (“Cabo do Medo”, guardava ainda ritos católicos que Scorsese trazia de “Taxi Driver”, encarnado na figura do Barrabás Max Cady. No evangélico quadrinístico de Phillips, não existem cordeiros a serem imolados a Deus. Existe gente a pagar o preço pela desatenção nossa de cada dia. E quem derrama esses coágulos é o verdugo do riso banguela vivido por um devastador Joaquin Phoenix. Veneza foi à loucura em suas sequências de dança, uma celebração do descontrole que dá lugar ao mal. É um filme sobre uma substituição à força (do ódio) da doença pela maldade. E Phoenix está soberbo ao operar essa substituição. Soberbo e cirúrgico, sendo dublado no Brasil por Hélio Ribeiro, um dínamo da voz.

Filho dos cartuns do já citado Jerry Robinson (1922-2011), o Coringa já contou com o talento de Cesar Romero (na série do Homem-Morcego dos anos 1960), de Jack Nicholson (em 1989) e de Heath Ledger (em 2008, em atuação coroada postumamente com o Oscar de coadjuvante). Robinson dizia que sua criação era um “gênio do crime que gostava de se vestir de circense”, era um resquício de um humor torto, de uma piada que entra, salta e arde. Só que o tempo foi engrossando a doideira desse gênio criminal, arrancando-lhe a mesura. A leitura de Phillips (realizador da franquia “Se beber, não case”) se passa no alvorecer da década de 1980. Nela, Bruce Wayne é um garoto e Arthur Fleck, o papel de Joaquin, é um comediante que trabalha como palhaço nas ruas e em hospitais de crianças. Mas ele tem distúrbios mentais (expressos na forma de uma risada descontrolada) que se agravam conforme sua carreira naufraga, sua mãe adoece, sua vizinha (Zazie Beetz) se apieda dele e um apresentador de TV (Robert De Niro, numa participação genial) faz troça de sua imagem. Conforme se afoga na loucura, mudando seu visual para os cabelos esverdeados do Coringa, Fleck vai contabilizando agressões, com direito a cabeças esmagadas e pessoas baleadas. Cada cabeça cortada, nesse País das Maravilhas gótico que é Gotham, o Coringa mais se empodera, vingando todos os arlequins do mundo, ao emprestar o choro de pierrô a toda a Gotham e ao pequeno Bruce.

Na fotografia de Lawrence Sher, Gotham é âmbar e suada, como um filme de Sidney Lumet, pois todo dia é “Um dia de Cão” nessa metrópole que ainda não encontrou seu cruzado de capa, mas já tem um Palhaço do Crime para chamar de seu. É a Nova Hollywood traduzida na língua das BDs, no “’Apocalypse Now’ das adaptações de banda desenhada”, como definiu-se no Lido. Um filme gigante, com um ator de talento GG. A conquista do Leão serve, ao mesmo tempo, como motivo de comemoração pela grande indústria, que teve seus méritos adultos reconhecidos, e como motivo de alarme diante do desgoverno institucional em que vivemos hoje. Rafael Sabatini (1875-1950), o autor de “Sacaramouche”, dizia “nos tempos em o mundo se mostra louco, herói é aquele que mantém o senso de humor”. Mas o humor do Coringa não é do tipo que pavimenta nada e, sim, algo que escancara a medida do abismo, daquela tal desaparição de Deus vista por Baudrillard como algo transparente. Transparente a tal ponto que a gente não enxerga.

Há uma peça teatral brasileira de 2005, de Gerald Thomas, com Marco Nanini, que se chama “Circo de Rins e Fígados”, na qual um funcionário público corre atrás de um sujeito chamado João Paradeiro. O nome em si indicava algo que existe para ser buscado... procurado continuamente, como um cachorro que corre atrás do próprio rabo, apenas pela agitação, apenas pela energia cinética do tumulto. Um tumulto que não inscreve em pedra, que desaparece no ar, mas que deixa traumas de assombro. Esse é o circo desse monumental Coringa de Phoenix... um circo que renasce nas cinzas da moral, na fogueira de uma ética que arde.