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O cinema político de Oliver Stone

Oliver Stone (Foto: Reprodução) Em 15 de setembro fez 74 anos o cineasta norte-americano Oliver Stone, um dos dedicados dir...

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Oliver Stone (Foto: Reprodução)

Em 15 de setembro fez 74 anos o cineasta norte-americano Oliver Stone, um dos dedicados diretores de um cinema de viés político, que persegue a reflexão crítica, a defesa e o apoio de causas e questões sobre temas cruciais como a guerra, a democracia, o capitalismo, a violência, os direitos civis, a liberdade.

 

Realizador na ficção e no documentário, Stone fez filmes que se tornaram marcos importantes na radiografia da sociedade americana, que pôs em crise e em cheque muitos dos seus principais valores e símbolos.

 

O cinema engajado de Stone tem paralelos em cinematografias de outros diretores, que também filmaram com o olhar crítico e sensível sobre mazelas sociais, incidentes políticos e propostas libertárias, casos do cinema do francês Jean-Luc Godard, do italiano Francesco Rosi, do grego Costa-Gavras, do inglês Ken Loach, do iugoslavo Emir Kusturica, dos brasileiros Glauber Rocha e Silvio Tendler, entre outros. Sem esquecer um dos pioneiros, da escola soviética, o russo Serguei Eisenstein. Cinemas de raízes distintas, onde o foco político se desdobra em diferentes linguagens e formatos estéticos.

 

Stone foi roteirista de clássicos como "O Expresso da Meia Noite" (Alan Parker, 1978) e "Scarface" (Brian de Palma, 1983), mas seu primeiro destaque na direção foi com "Platoon" (1986), que lhe deu os 2 Oscars, de melhor filme e melhor direção. Comovente filme sobre a Guerra do Vietname vista sob o olhar de um jovem soldado de 19 anos (ator Charlie Sheen), obra intensa, realista, perturbadora, brutal. Um filme sobre a caos e a angústia da guerra, onde não há heróis mas sim a crônica sobre a barbárie e as memórias de vidas perdidas. Disputou e ganhou ainda o Urso de Ouro de Berlin, o Globo de Ouro, e o prêmio Bafta de melhor diretor. Do filme, ecoa ainda uma das frases de um dos seus personagens: "A primeira vítima da guerra é a verdade".

 

Também sobre o drama do Vietname, "Nascido a 4 de Julho" (1989) deu a Stone mais um Oscar de melhor diretor. Novamente um libelo contra o pesadelo da guerra, onde seu personagem principal (ator Tom Cruise), vitimado fisicamente, transforma-se em um ex-combatente ativista pelos direitos humanos e contra a guerra, num embate cívico e político, em campanha cerrada acusando o país por ter traído seus ideais.

 

Ficção e fatos reais se fundem num dos clássicos de Stone, o filme "JFK — A Pergunta Que Não Quer Calar" (1991), que tenta dissecar as investigações sobre o assassinato de John Kennedy, trazendo como protagonista o obcecado advogado Jim Garrison (ator Kevin Costner) e as teorias que elabora sobre o episódio. Um filme em alta voltagem, com grande elenco e roteiro que entrecorta cenas documentais e ficcionais, e que deu a Stone o Globo de Ouro de melhor diretor.

 

"Entre o Céu e a Terra" (1993) traz a volta de Stone à Guerra do Vietname, em mais um filme antibelicista, num drama com conflito étnico, religioso e amoroso, torturado, entre uma vietnamita e um americano (ator Tommy Lee Jones).

 

Um dos mais polêmicos filmes de Stone é "Assassinos por Natureza (1994), onde um casal (ator Woody Harrelson e atriz Juliette Lewys) é unido pelo desejo de um pelo outro e pelo amor à violência. Assassinatos com requinte, perseguição policial, imprensa sensacionalista, são os elementos que compõem a narrativa de um filme acusado por parte da crítica como incentivador da violência, tanto pelo glamour como pela violência exacerbada. Mais um retrato de lados sombrios de uma América, vista por Stone.

 

Outro destaque em sua série de filmes é "Wall Street, Poder de Cobiça" (1987) e sua sequência "Wall Street, O Dinheiro Nunca Dorme" (2010), já em tempos da grande crise económica mundial, sobre falta de escrúpulos e ética, ambição, negócios e fraudes no mercado financeiro, a saga do mega especulador Gordon Gekko (ator Michael Douglas).

 

Outros filmes, sempre cruzando cinema e política, como "Nixon" (1995), "As Torres Gêmeas" (2005), "W" (2008), "Selvagens" (2012), "Snowden, Herói ou Traidor" (2016), este sobre a história e a façanha do ex-analista da Agência de Segurança Nacional dos USA - NSA (ator Joseph Gordon-Levitt) que revelou ao mundo o aparato de vigilância em massa que espionou estrangeiros e americanos.

 

Filmes que construíram uma carreira expressiva, colocando Stone no patamar dos importantes diretores do cinema mundial.

 

Um cinema que tem uma marca singular, que é o seu recorrente caráter investigativo, buscando desvendar camadas de uma real e amarga história americana.

 

Celebrado por um público exigente por filmes inteligentes e por setores da crítica, e não tanto por outros, que preferem enxergar as lentes de Stone comprometidas com a militância política.

 

Fora da ficção, as posições políticas do diretor, expressamente à esquerda, sempre foram transparentes, devidamente impressas nos seus documentários, como em "Comandante" (2002), em "Meu Amigo Hugo" (2014) e no mais recente "Conversas com Putin" (2017), atualmente em cartaz na rede Netflix.

A destacar, no que diz respeito ao Brasil, a importante participação de Oliver Stone entre as personalidades estrangeiras, na campanha por "Lula Livre", à qual o cineasta emprestou seu prestígio, sua solidariedade, sua liderança como formador de opinião.

Dermeval Netto / Jornalista e Crítico