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Maria Bethânia lança álbum em louvor à Estação Primeira de Mangueira

Jornal do Brasil CADERNO B, cadernob@jb.com.br

Clássicos de Nelson Cavaquinho, Hermínio Bello de Carvalho, Paulinho da Viola, Guilherme de Brito, Paulinho Tapajós e Assis Valente, e sambas inéditos de Nelson Sargento e Tantinho da Mangueira. O álbum 'Mangueira, a menina dos meus olhos' é o agradecimento de Maria Bethânia à escola de samba que se sagrou campeã ao homenagear a "menina dos olhos de Oyá", em um dos mais belos e emocionantes carnavais de sua história de glórias. 

Macaque in the trees
Maria Bethânia homenageia a Verde Rosa com novo disco (Foto: Jorge Bispo/Divulgação)

Gravado em Salvador e no Rio de Janeiro, com lançamento do selo Quitanda e distribuição da Biscoito Fino, o álbum tem direção artística e repertório selecionado pela própria abelha rainha. O maestro, compositor e arranjador baiano Letieres Leite, idealizador da Orkestra Rumpilezz, formada em Salvador por músicos de sopros e percussão, assina os arranjos e a direção musical do projeto.

“Quando eu fiz o disco, para agradecer à Mangueira a homenagem que me prestou e a vitória que conquistamos juntos, pensei em trazer aquele som de Santo Amaro. Queria fazer uma coisa que fosse o samba do Rio de Janeiro, o samba da Mangueira – com sua tradição, seu estilo, sua sofisticação -, mas que trouxesse toda a memória musical de Santo Amaro, infantil, comovida da minha infância. Então eu convidei o Letieres Leite, que é baiano, mas que é um músico do mundo”, pontua Bethânia.

Além de celebrar a Estação Primeira de Mangueira e ilustres compositores, o álbum apresenta dois sambas que concorreram em 2016, ano em que Maria Bethânia foi enredo da escola, mas que permaneciam inéditos: “37 sambas concorreram, algo que não acontecia há muito tempo na Mangueira. Queria pelo menos dois que não se classificaram no disco: um é do Tantinho, baluarte da Mangueira, e o outro de Seu Nelson Sargento, que é os 100 anos da Mangueira”.

Caetano, “um compositor apaixonado e um mangueirense apaixonado” e Moreno Veloso fazem o samba “Maria Bethânia, a menina dos olhos de Oyá” (Nelson Sargento / Gustavo Louzada / Agenor de Oliveira / André Karta Marcada) e Tantinho gravou o seu “A Menina dos olhos de Oyá” (Tantinho / André Braga / Guilherme Sá / Alipio Carmo/ Jansen Carvalho / Marcos Tulio). O samba-enredo sobre Bethânia, que embalou a vitória da Mangueira em 2016, e o hino do Carnaval de 2019, “Histórias pra ninar gente grande", que fez a Verde e Rosa ganhar mais um campeonato, também estão no repertório do álbum.

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O terreiro de Maria, a menina de Oyá. Em Mangueira não havia samba. Quem primeiro subiu o morro foi o candomblé

Por Marcio Debellian, diretor do filme Fevereiros

Estes rituais chegaram ao Rio trazidos por negros afro-baianos que migraram para a cidade a partir da segunda metade do século XIX. Localizados inicialmente no Centro, os terreiros das tias baianas, mães de santo e mães do samba, foram se espalhando pela cidade, subindo os morros, buscando brechas. Na época, samba e candomblé eram proibidos, caso de polícia.

O samba começou a soar em Mangueira quando os primeiros terreiros se instalaram por lá. Cartola, por exemplo, era cambono ajudante dos médiums e frequentador da macumba. O surgimento das escolas de samba é ligado a este movimento e as primeiras baterias tinham ogãs entre os seus componentes. Cada escola acabou influenciada pela rítmica de louvação a um Orixá. A bateria da Mangueira guardou como fundamento o toque característico do ilu de Oyá-Iansã.

No início dos anos 1930, o santamarense Assis Valente já avisava: como a Mangueira não há! Em 2016, ao homenagear Maria Bethânia com o enredo “A menina dos olhos de Oyá”, a Mangueira voltou o espelho à Bahia e à religiosidade brasileira. Com orixás, santos e pajés, cruzou a avenida num desfile inesquecível que marcou uma virada na sua história: o primeiro título depois de um jejum de 14 anos e a chegada de Leandro Vieira, carnavalesco então estreante.

“A menina dos meus olhos” é a continuação desta história, amor retribuído. A Bahia e o Rio entrelaçados na voz de Bethânia e nos arranjos primorosos de Letieres Leite. A primeira vez que Bethânia grava Nelson Cavaquinho em disco. Uma homenagem a Nelson Sargento e Tantinho que compuseram sambas para embalar o desfile da Escola em 2016. É um viva às intérpretes que vieram antes, como Clementina de Jesus e Aracy de Almeida, com quem Bethânia também aprendeu a cantar a verde e rosa.

Vinícius de Moraes dizia que Bethânia canta sempre um pouquinho atrasada, e atribuía isso àquele passo atrás do samba de roda do Recôncavo, a um jeito de corpo. É dele também a máxima de que “o bom samba é uma forma de oração”. Neste disco, as duas coisas se juntam e Bethânia transforma o samba-enredo campeão de 2019 numa prece pelo Brasil.

Seja no canto-falado de "A história que a história não conta" ou nos versos insuperáveis de "Sei lá, Mangueira", ficamos com a certeza da luta e do encantamento. Salve o terreiro da menina de Oyá: aqui os deuses dançam e compõem a cruzar tempo e espaço.

Repertório

1. A FLOR E O ESPINHO

Alcides Caminha / Guilherme de Brito / Nelson Cavaquinho

2. MANGUEIRA

Assis Valente / Zequinha Reis

3. A MANGUEIRA É LÁ NO CÉU

Mauricio Tapajós / Hermínio Bello de Carvalho

4. HISTÓRIAS PRA NINAR GENTE GRANDE - SAMBA-ENREDO 2019

Manu da Cuíca / Luiz Carlos Máximo / Deivid Domenico / Tomaz Miranda / Mama / Ronie Oliveira / Marcio Bola / Danilo Firmino

5. A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ

Tantinho / André Braga / Guilherme Sá / Alipio Carmo Jansen Carvalho / Marcos Tulio

6. MARIA BETHÂNIA, A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ

Nelson Sargento / Gustavo Louzada / Agenor de Oliveira / André Karta Marcada

Part. especial Caetano Veloso gentilmente cedido por Uns Produções / Moreno Veloso gentilmente cedido por Rinoceronte Entretenimento

7. LUZ NEGRA

Nelson Cavaquinho

8. SEI LÁ MANGUEIRA

Paulinho da Viola / Hermínio Bello de Carvalho

9. MARIA BETHÂNIA, A MENINA DOS OLHOS DE OYÁ SAMBA-ENREDO 2016

Alemão do Cavaco / Almyr / Cadu / Lacyr D’Mangueira / Paulinho Bandolim / Renan Brandão