Jornal do Brasil

CadernoB

Livro mostra face de Paulo Freire como gestor

Jornal do Brasil

"Quem é Paulo Freire no atual contexto educacional brasileiro?" A pergunta foi feita ao próprio em entrevista em 1989. "Venho sendo um educador vivo, presente no contexto educacional brasileiro", respondeu.

Macaque in the trees
Paulo Freire (Foto: José Cruz/Agência Brasil)

A definição permanece válida. Vinte e dois anos após sua morte, Paulo Freire ainda está no centro do debate educacional. Pensador brasileiro com a obra de ciências sociais mais citada no meio acadêmico ("Pedagogia do Oprimido"), é alvo constante do governo do presidente Jair Bolsonaro.

O efeito colateral da visão de Freire como autor maldito é a atenção que ela despertou para seu pensamento. O interesse pode ser notado pela edição de livros sobre ele. Lançado recentemente, "O Educador - Um Perfil de Paulo Freire" (ed. Todavia, 256 págs.), de Sérgio Haddad, se propõe a retratar sua vida e obra.

Agora, outra obra joga luz sobre uma fase menos explorada da biografia de Freire, conhecido pela campanha de alfabetização no Nordeste nos anos 1960, pela qual foi perseguido pela ditadura militar.

"Direitos Humanos e Educação Libertadora - Gestão Democrática da Educação Pública na Cidade de São Paulo" mostra o Paulo Freire gestor, à frente das escolas municipais de São Paulo na gestão Luiza Erundina (1989-1993).

A obra reúne textos, discursos e entrevistas de Freire nos dois anos e meio em que comandou a Secretaria da Educação, além de relatos de pessoas que atuaram com ele. Tem como organizadores a educadora Ana Maria Araújo Freire, viúva de Paulo, e o professor aposentado da UnB Erasto Fortes Mendonça.

Paulo Freire chegou à secretaria em 1989, aos 67 anos, já consagrado no exterior. Reportagem da Folha de S.Paulo publicada quando ele decidiu assumir o cargo mostra o barulho que sua chegada à prefeitura gerou. O texto começava assim: "'A gente cheguemos' não será uma construção gramatical errada na gestão do Partido dos Trabalhadores em São Paulo".

Ao assumir o cargo, Freire explicou: professores deveriam sim ensinar a norma culta da língua, mas não podiam inferiorizar crianças pobres que falavam de outro jeito.

Entre seus feitos estão a melhora no índice de aprovação, a implantação de conselhos de escola, a ampliação da educação de adultos e o desenvolvimento de projetos inovadores de informática e de orientação sexual. Por outro lado, teve dificuldades com burocracia, orçamento e companheiros de seu partido, o PT.

Em parte por causa de alguns deles chegou a anunciar sua saída um ano e meio após a posse. O episódio é relatado no livro de Haddad.

Após a demissão de funcionários em cargos de confiança, dois deles reagiram com textos sobre a gestão do secretário. Um foi endereçado ao Diretório Municipal do PT e outro, à imprensa. Entre as críticas, as de que os resultados da gestão eram fracos e que o projeto pedagógico não correspondia às expectativas.

O contexto educacional na época era ainda mais complicado que hoje. A população em idade escolar aumentava. O índice de aprovação, que no primeiro ano da gestão Freire foi o melhor em uma década, estava longe do ideal: 79,5% (hoje, é de 98%). Os problemas de infraestrutura eram gravíssimos. Em um trecho, Freire relata que faltavam 30 mil carteiras escolares.

Com obstáculos como esses, ao sair da secretaria em 1991 para se dedicar mais à vida acadêmica e à família, Freire deixou algumas dúvidas sobre o sucesso de seu compromisso de "mudar a cara da escola".

O livro de Haddad registra título do jornal O Estado de S. Paulo ao noticiar sua saída: "Reprovado, Paulo Freire deixa a Educação".

Cerca de um ano antes, análise publicada na Folha de S.Paulo dizia que faltava a "marca pessoal" de Freire à sua gestão. Citava o aumento do número de vagas, mas afirmava: "Um ano e meio depois, os críticos dormem sossegados. Freire não implantou sua pedagogia na rede, nenhuma reforma curricular de peso foi sentida".

Tanto o livro de Haddad como o organizado por Erasto e Ana Maria mostram a relação às vezes conflituosa dele como secretário com a imprensa.

Por ter só a voz do educador e de apoiadores, a obra da dupla não permite uma análise crítica da gestão freireana. Mas tem material precioso para entender a visão dele sobre a educação, para além do atual pensamento binário. "Cristo levou-me a Marx, mas eu nunca me neguei o direito de questionar a ambos", diz Freire em certo momento.

Ao longo dos textos e entrevistas, ele deixa claro seu entendimento de educação como instrumento de emancipação do povo. "O trabalhador do ensino, enquanto tal, é um político, independentemente de se é, ou não, consciente disso", afirma. E explica o que entende ser a missão do educador progressista: lutar pela escola pública, pela educação popular e pela organização dos trabalhadores.

Mas, contrapondo-se a quem o vê como ícone da doutrinação, coloca-se como defensor de um estudante com leitura crítica da realidade e de professores que não imponham visões de mundo.

Cita a censura de sua obra na Alemanha Oriental e comenta protestos no leste europeu contra regimes comunistas: "As pessoas estão dizendo não àqueles que as vêm privando de seu direito de pensar, de questionar, de serem sujeitos de sua própria história".

Nesse sentido, é interessante notar como, em sua gestão, teve que aceitar democraticamente a rejeição de professores à sua ideia de escolher diretores de escola por eleição.

Em uma entrevista, ele diz algo que, no primeiro momento, parece ter saído da boca dos atuais críticos: "O obstáculo maior que enfrentamos e temos que enfrentar para realizar a mudança da cara da escola é o ideológico". Mas, na sequência, completa, sinalizando sua diferença: "Não é fácil remover de nós o gosto das posturas autoritárias".(Angela Pinho/FolhaPress SNG)