Coringa, o palhaço do caos

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“O teatro é uma experiência profundíssima, que tem que ser desagradável, ofender e massacrar o espectador”, dizia Nelson Rodrigues, nosso maior dramaturgo. Em “Coringa”, escrito e dirigido por Todd Phillips, mergulhar no mais assustador vilão dos quadrinhos é um ato de coragem e um investimento na experiência de massacrar a plateia com aquilo que está tão presente. Mais que isso, Phillips tem a maestria de conservar a concepção de origem, os quadrinhos, e estruturar a trama nos pilares da linguagem cinematográfica, fazendo de “Coringa” não só o filme do ano, como um ponto de revolução do gênero. A partir daqui o patamar dos quadrinhos no cinema foi elevado.

O gênero tem décadas de evolução na telona. Richard Donner, nos anos 1970, levou ao cinema um Superman que mudou o curso da história por causa de uma mulher. Anos depois, Tim Burton e Christopher Nolan avançaram com Batman e Coringa, que se espelhavam. Cada um com seu próprio código de “justiça”. Paralelo a isso, a Marvel investiu em um vampiro herói Blade, em versões altas (Sam Raimi) e baixas do Homem-Aranha e mostrou que filmes de equipe com os X-Men funcionavam muito bem, até chegar ao universo compartilhado dando a partida com Homem de Ferro e Os Vingadores. “Coringa” é a quebra de paradigma que redimensiona a galeria evolutiva dos filmes de super-heróis e vilões do cinema.

Em 2008, a DC Comics investiu no Coringa antológico de Heath Ledger como o lorde do caos. Em 2019, a Marvel apresentou Thanos (Josh Brolin) com questões complexas de um tirano, e agora passamos pela imersão no Coringa/Arthur Fleck de Joaquin Phoenix. Da provocação ofensiva como Nelson Rodrigues concebia em seu teatro, observamos naquele personagem excluído muitos de nós, e do que é feita nossa sociedade, mesmo que não seja nossa vontade enxergar.

A ruptura com a civilização começa quando o Fleck é espancado por uns garotos com a suposta intenção de se divertir com um “bobo”. Podemos lembrar do espancamento de uma empregada doméstica num ponto de ônibus do Rio de Janeiro ou do índio incendiado em Brasília por rapazes de famílía. No filme, para resolver a questão do jeito mais simples e errado, um colega de Arthur Fleck lhe passa um revólver carregado (a intenção é vender a arma). Arthur, um homem que já foi internado numa instituição mental e perdeu o auxílio médico que tinha para comprar remédios (corte do governo), a arma na mão, mata três engravatados bêbados que o agrediram num trem e as peças mitológicas começam a se encaixar.

Um recurso simbólico do mal-estar civilizatório é a imensa escadaria que Arthur tem que subir para chegar em casa. Essa mesma escadaria, num dado momento, ele vai descer triunfante para o ato final. A trilha sonora da islandesa Hildur Guðnadóttir (brilhante na série Chernobyl) é um zumbido inquietante que vai crescendo conforme a tensão e o poder de Fleck aumentam.

Num design de produção impecável, a Gotham lembra a Nova York de Taxi Driver, assim como Arthur emula o Travis Bickle daquele filme. Aliás Robert De Niro está neste Coringa como apresentador de um show de TV que evoca outro filme dele “O Rei da Comédia”, mas também um marco do cinema nos anos 1970, “Rede de Intrigas”, de Sidney Lumet.

O sensacionalismo de alguns programas de TV e jornais reflete a semente que vai brotar o Coringa. O caos alimenta movimentos de ódio. Afinal, testemunhamos nos últimos anos e historicamente que o caos é o campo de crescimento da barbárie e dos tiranos. É aí que nascem e se reproduzem os palhaços da trama e sua abelha rainha, o Coringa. O diretor Todd Phillips tem a trilha para explorar a mitologia desse personagem e suas conexões já conhecidas envolvendo a família Wayne.

Há muito o que pensar sobre Coringa. Joaquin Phoenix faz um trabalho histórico e favoritíssimo ao Oscar na difícil concepção de um personagem já tão brilhantemente explorado por uma seleção de atores. A doença do riso encenada é sinal de tensão e ao mesmo tempo ironia. Ouvir “Smile” de Charles Chaplin na trilha sonora, uma canção do otimismo, é uma provocação. Em muitos momentos, o ator nos arranca um sentimento de pena e tristeza. Em outros, pavor. O Coringa sai do labirinto da sua mente torturada para assumir o personagem de palhaço do caos. Não semeie o ódio porque dele brotam tiranos como Arthur Fleck.