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ARTIGO - A bossa nova e João Gilberto

No Brasil dos sonhos, do final dos anos 50, após a comoção popular do suicídio de Getúlio Vargas, e a posse de Jusc...

No Brasil dos sonhos, do final dos anos 50, após a comoção popular do suicídio de Getúlio Vargas, e a posse de Juscelino Kubitschek, na presidência, a nossa música passava, assim como o país, por um grande processo de modernização. O ápice desse novo Brasil, na cultura, veio com o lançamento do LP "Chega de Saudade", do gênio João Gilberto, em 1959.

A música que nomeia o álbum foi gravada, primeiramente, por Elizeth Cardoso, em 1958, no álbum “Canção do Amor Demais”. A letra é de Vinícius de Moraes, em parceria com o maestro Antonio Carlos Jobim.

Tom Jobim se inspirou no erudito-popular de Villa-Lobos (falecido também em 1959), um dos maiores nomes da brasilidade - do Barroco ao Choro, passando pelo Samba - enquanto conceito e sentimento, para suas composições que ajudaram a criar a Bossa Nova.

Porém o grande encontro, o divisor de águas da Música Popular Mundial, foi quando um sujeito do Sertão da Bahia, lá de Juazeiro, decidiu gravar a canção.

Inspirado no samba baiano e carioca, na égide do Brasil pós-Canções Praieiras, de Dorival Caymmi, João Gilberto condensa a infinidade rítmica do tronco musical brasileiro num jeito único e peculiar de tocar o violão.

Os surdos, pandeiros, cuícas, tamborins, frigideiras se reúnem no jeito quebrado e harmonioso do violão joão-gilbertiano. O canto que, segundo alguns, teve influências de respirações nas práticas de Yoga, também mostrou que aquele jeito - genial, inclusive - das cantorias de Nelson Gonçalves e Orlando Silva não seriam os únicos a destilar a brasilidade.

Gilberto Gil disse que não sabia ao certo se era um violão depoIs de ouvir "Chega de Saudade" pela primeira vez. Aquilo, segundo ele, mudou toda sua concepção sobre música. Mesma coisa serve para o crítico Nelson Motta, relatando que ouvira algo inacreditável.

Mas a modernidade, a inovação - assim como o Brasil - não foi desacompanhada do antigo. João Gilberto regravou canções de Ary Barroso e Dorival Caymmi. O aceno ao Brasil que se descobriu musicalmente de Donga, Pixinguinha, Noel Rosa até Caetano Veloso, esse posteriormente, sempre foi homenageado nas apresentações de João.

O baiano de Juazeiro, há 60 anos, mostrou ao mundo que conseguiu dizer o que muitos queriam durante muito tempo: a Bossa Nova.

A proximidade com o Jazz é outra história - veio depois, mesmo que a música brasileira, em grande parte, tenha os Estados Unidos e a França como referência. Seja como influência, lembrando de Pixinguinha; seja para negar, lembrando de Noel Rosa.

Esse orgulho brasileiro deu tão certo que Juscelino foi o Presidente Bossa Nova. A Juventude da UDN, opositora de JK - e do saudoso e brilhante Getúlio Vargas -, também quis se chamar de Bossa Nova. João Gilberto encantou a classe média e a elite brasileira, mas mesmo assim cantou “Pra quê discutir com madame”, num verdadeiro hino a favor do samba como expressão cultural nacional e popular. Beth Carvalho, que recentemente nos deixou, era a Madrinha do Samba e também regravou Chega de Saudade numa pegada típica das rodas de samba do Subúrbio Carioca.

A obra de João Gilberto influenciou diretamente todos os grandes músicos brasileiros que vieram depois. Além disso, você vê expressões claramente joão-gilbertianas até em músicas de indie rock, no rap e no trap, até porque João Gilberto foi um divisor de águas também para o mundo Jazz que influencia a música norte-americana e europeia até hoje.

João nos deixou um legado imensurável.

Uma visão do todo quando se trata desse baiano que melhor cantou o Rio de Janeiro é um grande desafio para os amantes da música popular brasileira.

O sonho daquele Brasil feliz, avançado e autêntico segue, apesar de tudo que vemos por aí.

Obrigado, João.

* Historiador da Fundação Leonel Brizola