Todos vivemos em pânico com a possibilidade de acidentes extemporâneos nos tirarem a vida. Um avião cair sobre nossas cabeças, uma onda nos levar, um acidente nuclear, uma bala perdida. Vivemos na expectativa da morte, da vida que , sem qualquer explicação, pode ir embora. "As crianças", peça da jovem autora inglesa Lucy Kirkwood, encenada com enorme sucesso no West End e na Broadway, realiza a metáfora dos jogos que nos encaminham para a reflexão sobre a nossa finitude. Um acidente nuclear, um terremoto. E o maior de todos, a velhice.
No cenário de Rodrigo Portela (também diretor) e Júlia Decacche que mistura a aridez da brita no chão, com belos e simples elementos de madeira, os três atores – Mario Borges, Analu Prestes e Stela Freitas – interpretam antigos contemporâneos engenheiros nucleares – Robin, Dayse e Rose –, que agora se vêem frente à decisão sobre que caminho a tomar, ao final da estrada que lhes resta.
Daisy e Robin formam um casal de aposentados e agora fazendeiros, mas que ainda vivem próximos a usina nuclear, que os três construíram. Rose, como uma fantasma do passado, ressurge para, como um anjo, trombetear que chegou o momento de um juízo final.
A direção de Rodrigo Portella opta pelos atores falarem as rubricas, o que introduz
uma figura estrutural da linguagem dramatúrgica: o narrador.
Assim, Rodrigo evidencia o inusitado que um texto de composição aparentemente tradicional nos traz. “As crianças” é uma composição clássica, com mesmo cenário, tempo real e bastante verossimilhança, mas que o trabalho de direção atualiza com despojamento e sofisticada simplicidade, trazendo uma contemporaneidade ao que se presencia. Não há fortes embates, nem gritos, nada. A cena da memória da festa é absolutamente perfeita para dar o significado: existe, nas pessoas, a memória de um momento feliz, de juventude, de um instante no qual parece que seremos eternos. Esse é o ponto interessante no trabalho de Rodrigo Portella: criar a proximidade, o envolvimento.
Apesar de serem muito semelhantes aos de “Tom na fazenda” – mega sucesso também dirigido por Portella –, os figurinos criam nos atores essa mistura de ficção científica, próxima ao tema, ao mesmo tempo em que lhes retiram qualquer caráter etário.
Analu, Stela e Mario executam um balé sem qualquer tique de velhice, movem-se com rapidez e segurança. Ah! E a interpretação, o jeito com que falam, que modulam, que experimentam as sensações trazidas pelos sentimentos do outro, é marcante. São três monstros do teatro, ali, encenando um texto difícil, pois aquilo do que falam – o passado, a convivência, o perigo da usina – é tudo cortina de fumaça para pensar sobre a nossa limitação.
“As crianças” é uma prova de que o teatro se renova. Que a junção entre o antigo e o novo só o reforça, só aumenta a sua força. Três atores veteranos, um jovem diretor e uma jovem autora são o significante perfeito para o maior sentido do texto. Deixai vir a mim as criancinhas que são os jovens cientistas, que devem não se expor ao perigo da radiação. E, em um momento crucial para a arte brasileira, vale a questão: os antigos devem preservar os jovens dos perigos, ajudá-los a caminhar e a se manterem vivos. Esse é o maior legado, que ultrapassa os desastres.
*Professora do Depto. de Comunicação da PUC-Rio e doutora em Letras
AS CRIANÇAS
TEATRO POEIRA. Rua São João Batista, 104, Botafogo. Tel,: 2537-8053. De quinta a sábado, às 21h; domingo, às 19h. Até 31 de março. Entrada: R$ 60 (inteira) / R$ 30 (meia). Ingressos na bilheteria, a partir das 15h, ou online, pelo site tudus.com.br. Capacidade: 145 espectadores. Duração: 100 minutos.