Passeando na vida e obra de Leminski

Agora em 2019, no dia 7 de junho, estarão se completando 30 anos da morte do poeta, escritor, compositor e tradutor Paulo Leminski. Sua obra icônica está longe de ser esquecida pelos brasileiros. A coletânea “Toda poesia”, lançada em 2013 com 630 poemas, se tornou um best-seller, tendo sido eleita o livro do ano pela Associação Paulista dos Críticos de São Paulo (APCA). Até 2017, foram vendidos mais de 140 mil exemplares. A biografia “O bandido que sabia latim”, publicada por Toninho Vaz em 2001, vendeu mais de 14 mil exemplares até 2013. E até agosto de 2017 a exposição itinerante “Múltiplo Leminski” foi vista por cerca de 500 mil pessoas.

Um caminho rápido para se aproximar do poeta curitibano foi aberto no ano passado pelo também poeta Rodrigo Garcia Lopes, que, a pedido da Biblioteca Pública de Paraná, escreveu um “Roteiro Literário Paulo Leminski” culto e afetuoso. Conhecendo profundamente a vida e obra do homem considerado um eterno hippie, radical e marginal, Rodrigo teve a felicidade de privar de sua intimidade. Com isso, seu roteiro é um verdadeiro passeio por sua arte de Leminski e pela cabeça multifacetada, que nunca parava de arquitetar poesias, textos e canções.

Ao fazer a apresentação do amigo, Rodrigo o chama de “Um clássico contemporâneo”. Mesmo sendo visto como um iconoclasta, Leminski tinha apreço pela rima. “A rima impede o verso de desmoronar”, disse. Abrindo um dos cadernos inéditos do poeta, o autor do “Roteiro” encontrou a seguinte definição para poesia e rima: “Rima é a participação de uma palavra no mistério da outra. E o que é a poesia senão a participação de uma palavra no mistério de outras? Sem rima não há poesia”.

Teóricos que o influenciaram muito foram o poeta Ezra Pound – sobretudo através do livro “ABC da Literatura” – e o linguista e formalista russo Roman Jakobson. Como Pound, Leminski não tinha nenhuma “angústia de influência”. Lia e se apropriava do que lia. Chegou a ter uma biblioteca de cinco mil volumes, da qual sobrevivem 1.300 volumes. Eis o que disse a um repórter a este respeito: “Acho que um escritor até os 40 anos é influenciado por todo mundo, depois ele passa a ser influenciado por si mesmo. Estou na fase em que a maior influência de Paulo Leminski é Paulo Leminski mesmo”.

Os escritores preferidos ou seu paideuma (segundo o conceito empregado por Pound referindo-se a corpus literário), foram os seguintes: Homero Dante, Camões, Shakespeare, o filósofo René Descartes, Matsuo Bashô, Arnaut Daniel, Stéphane Mallarmé, Poe, Ezra Pound, James Joyce, Fernando Pessoa, Maiakovski, Leon Trotski, Roman Jacobson, e, no Brasil, Cruz e Souza, Olavo Bilac, Oswald de Andrade, Carlos Drummond de Andrade, Guimarães Rosa, Augusto de Campos, Haroldo de Campos, João Cabral de Melo Neto, Caetano Veloso, Chico Buarque e Gilberto Gil.

As estações

Rodrigo Garcia Lopes dividiu a vida de Leminski em quatro estações. A “Primavera” vai desde o nascimento, em 1944, aos anos 60. A mãe, mestiça, tinha o sangue indígena (carijó), negro e português, enquanto o pai era um sargento polonês, também chamado Paulo Leminski. O filho começou a escrever poesia aos 8 anos. Estudou em vários colégios, tendo tido uma passagem marcante pelo Mosteiro de São Bento, em São Paulo, onde aprendeu grego e latim. Ali descobriu Descartes, Euclides da Cunha e a cultura greco-latina. Na primeira metade dos anos 60, passou no vestibular para Direito e Letras, mas não cursou. Começou a dar aulas em cursinhos pré-vestibulares. Nos anos 60, descobriu os haicais e o zen-budismo. Estudou judô, tendo chegado a ser faixa preta. Identificou-se com a poesia concreta e com o Modernismo de 22.

No período que Rodrigo chama de “Verão”, que vai dos anos 60 aos 70, tornou-se um boêmio frequentador de bares e drogou-se: “Vamos aos extremos mesmo, porque, no final, quem tem boa cabeça vai se salvar”. Teve um filho com Neiva de Souza, que recebeu o nome de Paulo Leminski Neto. Mas o grande encontro será com Alice Ruiz, com quem se casará e terá os filhos Miguel, Estrela e Áurea. Aproximou-se da Tropicália e da MPB. Passou um ano e meio no Rio, onde se aventurou como jornalista, tendo conhecido José Louzeiro, Antonio Houaiss e Otto Maria Carpeaux. Foi chamado por Luiz Carlos Maciel de “o espírito ambulante da contracultura”. Morou no Solar da Fossa, mas voltou para Curitiba, dizendo não poder viver longe das araucárias. Em 1973 perdeu o pai e deixou de dar aulas em cursinhos, passando a trabalhar na publicidade em meio expediente. À noite reservava para os próprios escritos.

O “Outono”, que no “Roteiro Literário” vai de 1975 a 1986, começa com o lançamento de “Catatau”. É um período em que investiu muito na canção, tendo feito várias parcerias. Entrou em contato com a poesia marginal e a geração mimeógrafo. Sua residência em Pilarzinho estava sempre aberta. Nela recebeu Caetano, Gil, Moraes Moreira, Jorge Mautner, Waly Salomão e Paulinho Boca de Cantor. Pela primeira vez teve um alerta médico de que o fígado estava comprometido. O filho Miguel morreu de leucemia e o poeta ficou dois anos sem beber. Em 1981 Caetano gravaria sua canção “Verdura” e a música “Promessas demais” viraria abertura da novela “Paraíso”, da TV Globo. Sua poesia foi reunida em livro em 1983, com o título de “Caprichos & relaxos”. Leminski se tornaria um autor com reconhecimento nacional. Mergulhou na tradução e nas biografias de Jesus, Trotski, Cruz e Souza e Bashô. Ficou fascinado pelo grafite. Teve um encontro com Itamar Assumpção que geraria nova parceria. Fez a trilha musical do especial infantil Pirlimpimpim 2, da Globo, com Guilherme Arantes.

E eis que chega o “Inverno”, que vai de fim de 86 a 1989. Leminski termina “Metamorfose”, livro que receberá o Jabuti postumamente em 1995. Sofre um forte baque com o suicídio do irmão Pedro. Em 1987 lança “Distraídos venceremos” e, em 1988, se separa de Alice. Parte então para uma temporada em São Paulo. Participa de oficinas, escreve poemas, faz novas amizades e tem uma experiência profissional na TV Bandeirantes. Após um segundo diagnóstico de cirrose, escreveu em “Dor elegante”, musicada por Itamar Assumpção: “Ópios, édens, analgésicos, não me toquem nessa dor, ela é tudo que me sobra, sofrer vai ser minha última obra”. Berenice Mendes se tornaria sua nova companheira. Volta a Curitiba e morre em 7 de junho de 1989.

A poesia e Catatau

Na parte do livro denominada “Habitante da Linguagem”, Rodrigo Garcia Lopes analisa a poesia de Leminski e seu principal livro em prosa, “Catatau”. O vate curitibano era apaixonado pela linguagem. Em uma de suas cadernetas ele escreveu: “O código verbal é a mais genial invenção do Homo sapiens. As demais são extensões dele”. E numa palestra feita na Funarte afirmou: “A palavra pode falar de um quadro, um quadro não pode falar das palavras. As palavras podem falar de um espetáculo de dança, um espetáculo de dança não pode falar das palavras...”. Sobre a poesia, Leminski fazia questão de ressaltar o fato de ser um inutensílio, ou seja, “a poesia não tem que estar a serviço de nenhuma causa. A poesia é o exercício da liberdade”.

Ao analisar a poética leminskiana, Rodrigo Garcia Lopes seguiu as categorias criadas por Pound em “ABC da literatura”: fanopeia, melopeia e logopeia. A primeira fase teria sido a da fanopeia, a da poesia para o olho ou “um lance de imagens na imaginação visual”. Leminski foi adepto do imagismo, tendo se apaixonado pelos haicais chineses e japoneses. Um exemplo seria “a noite/ me pinga uma estrela no olho/ e passa”. Depois ele se voltará para a melopeia, a música das palavras, o ritmo, o som: “Agora eu poeto no tempo, na substância fugaz da voz, na música, na cadeia de sons da vida. Sobretudo no corpo da voz, essa coisa quente que sai de dentro do corpo humano para o beijo ou para o grito de guerra”. A última fase, a logopeia, é dedicada à linguagem, à dança das letras ou poesia pensante. Essa poesia de “ideias em carne viva” estará presente, sobretudo, no livro “Distraídos venceremos”.

Rodrigo oferece ao leitor ótimas explicações sobre a complexa tessitura de “Catatau”, o primeiro livro de extrema opacidade para quem não tem as chaves de abertura do hermético cofre literário. Mas se torna bem legível quando se passa a saber que foi um romance-ideia, que veio à cabeça do autor quando dava aulas sobre a Invasão Holandesa. Como se tivesse uma iluminação, imaginou que Descartes teria vindo ao Brasil com Nassau e que aqui teria se entupido de cannabis, enquanto esperava a chegada de Artyschewsky, intelectual e estrategista polonês. Ganhamos ainda de presente a narrativa do encontro de Rodrigo com Leminski e uma “Geografia Literária” de Curitiba, com fotos sobre os lugares da cidade pelos quais o poeta perambulava ou que foram importantes em sua vida, como a maternidade, as livrarias, os bares que frequentou, as casas onde morou, e o cemitério onde está enterrado. Um passeio e tanto.