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Críticas de cinema

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Guerra Fria ****

Como só David Lean sabia fazer

Rodrigo Fonseca*

Especial para o JB

É difícil pensar em um diretor que tenha dado ao amor romântico uma dimensão plástica (e ética), no pathos do querer, tão possante quanto o inglês David Lean (1908-1991) deu a suas incursões ora intimistas (“Desencanto”, de 1945), ora épicas (“Doutor Jivago”, de 1965) ao bem-querer. Houve Boris Barnet (1902-1965), russo por trás de “À beira do mar azul” (1936), que salpicava humor na massa áspera do desejo. E há Philippe Garrel (“Amantes constantes”), mas este, francês, vai por uma metafísica na qual a paixão é doença. Em Lean, paixão era um norte. Como ele, talvez só haja um: Pawel Pawlikowski, polonês responsável por tocar Caetano e Gil no suarento “Meu amor de verão” (2004), que alcançou prestígio ao ganhar o Oscar com “Ida”, em 2015. Mas ali, ele era só um artesão embevecido com o próprio rigor técnico, dado a força plástica de suas imagens em preto e branco. Não havia a transcendência que transpira de cada quadro (um mais rigoroso do que o outro) de “Guerra Fria”, produção de €4,3 milhões pela qual ele conquistou o prêmio de melhor direção em Cannes. Agora, “Cold War” está na mira da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas de Hollywood, com chance de ser oscarizado em três categorias: melhor diretor, filme estrangeiro e fotografia, coroando os enquadramentos de Lukasz Zal, por toda sua beleza plástica na saturação do P&B. Temos um romance desvairado, descabelado e doído como os de Lean: o maestro Wiktor (Tomasz Kot) e a cantora Zula (Joanna Kulig), revelada por ele, entram numa simbiose de almas em meio à realização de um espetáculo e, para fugir do controle do Estado, ganham a Europa à cata de paz. Mas existe o amor e existe a vida, sua inimiga. Nas andanças, em anos de vai e vem por muitos países, o certo vira errado e brotam demandas a serem vencidas, como ciúme, posse, gastura. É um filme sobre correntes que libertam e liberdades que agrilhoam: um ensaio sobre a hipótese do perpétuo no efêmero da vida a dois. É um filme existencial, sobre o ônus de gostar demais. Um filme onde o som é titânico, como engenharia técnica, na demarcação do beleza e do desvario. É a virada de Pawel para o panteão dos poetas da imagem.

NO PORTAL DA ETERNIDADE ***

Van Gogh, por dentro e por fora

Julian Schnabel é um diretor/autor/artista plástico propenso a desconstruir biografias através do seu olhar sem clichês, tanto para a narrativa quanto para a mise en scène em suas obras, que já lhe levou para os holofotes com "O escafandro e a borboleta", longa de 12 anos atrás, vencedor de prêmio em Cannes e indicado ao Oscar, que adequou sua imagética à estrutura de seu retratado, o jornalista Jean Bauby, que sofreu um derrame e teve sua existência gradativamente paralisada. Schnabel flerta com a proposta apresentada lá na abertura de seu novo longa, para em seguida apontar caminhos diferentes esteticamente.

O personagem da vez é o gênio holandês Vincent Van Gogh, que já rendeu inúmeras produções, mas que dessa vez propõe enxergar o interior do pintor e recriar seu preciosismo na tela, em paralelo. Através da luz do francês Benoît Delhomme (que já trabalhou com mestres como Tsai Ming-Liang e Tran Ahn Hung), o diretor passeia pela obra de Van Gogh em texturas, cores e potência, em trabalho visual inspirado e delicado ao mesmo tempo. Mas seria "fácil" reproduzir o olhar de um mestre através da fotografia: Schnabel vai além e narra os próprios pensamentos de um dos pais da arte moderna.

Para isso, conta com roteiro assinado por ele, Louise Kugelberg e Jean-Claude Carriére, o homem por trás de clássicos como "A bela da tarde" e "O discreto charme da burguesia", que conta com inspiradas reflexões ditas por Willem Dafoe, merecidamente indicado ao Oscar por esse momento, além de ganhar o prêmio de ator em Veneza. Da união de um roteiro minucioso, onde Van Gogh analisa sua própria vida e sua obra, ao talento descomunal de Dafoe, nasce um filme que só peca na periferia de sua narrativa ao apenas pincelar participações em sua vida, sem dedicar muita profundidade; na centralidade, reina soberana a arte e a personalidade de um dos maiores de todos os tempos. (F.C.)

O GALÃ *** 

Meio Dean Martin, quase Jerry Lewis

Autor de piadas para os Irmãos Marx e Lucille Ball, animador e realizador de filmes que refinaram o humor de Jerry Lewis na telona, Frank Tashlin (1913-1972) deu à comédia hollywoodiana dos anos 1950 uma excelência singular (mas ainda pouco reconhecida) pra lidar com as inaptidões inerentes à timidez. Tipos tímidos brotam de seus clássicos do riso como "Artistas e modelos" (1955), num esforço de dar ao filão cômico uma dimensão de crônica de costumes. Poucos diretores - nos EUA, só Peyton Reed, de "Sim, senhor" - foram pelas vias de Tashlin, mas, no Brasil, o vaudeville "O galã" tem aroma tashliniano, graças à cultura cinéfila de seu diretor, Francisco Ramalho Jr. (de "O cortiço). Um estudioso dos engasgos morais que levam o amor ao boicote, como se viu em sua obra-prima, "À flor da pele" (1977), ele se debruça aqui sobre veredas da gargalhada, com base na peça "Meio irmão", de Emílio Boechat. Faz com ela algo similar ao que Tashlin criou no doce "Em busca de um homem" (1957): uma investigação sobre os afetos no universo audiovisual. Thiago Fragoso é seu Dean Martin: ele vive Júlio, um ator à cata de sucesso que busca um papel numa novela em meio à reinvenção de suas emoções. Já Luiz Henrique Nogueira (impecável em cena) é o lado Lewis deste quiprocó: ele vive Beto, o autor do folhetim em que Júlio, seu mano mais moço, deseja atuar. Entre peripécias por amor, vaidade e rivalidade com um astro jovem (Fiuk), Júlio e Beto revisam desavenças e afinidades numa montagem (de Manga Campion) que nunca deixa o ritmo escorregar e disfarça diálogos menos inspirados. É comédia à moda antiga... à moda Tashlin. (R.F.)

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Divulgação - Willem Dafoe impressiona como o mestre holandês no filme de Julian Schnabel
Divulgação - Fiuk e Thiago Fragoso em cena de "O galã", de Francisco Ramalho Jr.