Uma nova aquarela

Pintor na juventude, Max Joffe reflete sobre amor e perdão no novo livro "Janine"

Jose Marinho Peres
Credit...Jose Marinho Peres

“Nunca faça nada que se torne irreversível”. O caminho literário do escritor Max Joffe é tão fértil quanto suas histórias de viagens pelo mundo. Peregrino incansável na busca por paisagens, histórias e visões da espiritualidade, o engenheiro que se dedicou por mais de 30 anos ao mercado financeiro hoje investe nas palavras. Seu segundo livro, “Janine” (Fontenele Publicações, 256 páginas), é um libelo a favor do perdão, em um sentido místico e transcendente. A obra de estreia foi “24 horas de reflexão”, em que já apresentava ao leitor questões sobre o espírito do nosso tempo, o amor e sentimentos cotidianos.

“Janine” é um passeio pelo Rio de Janeiro de 1978, um tempo de ricas lembranças para o autor. Com uma linguagem ágil e objetiva, espelho de sua experiência profissional, e a leveza dos tempos em que os jovens da Zona Sul do Rio gozavam a liberdade de empreender maratonas boêmias entre as boates e as ruas da cidade de madrugada eram mais ricas de crônicas afetivas do que de histórias policiais, as trajetórias de mãe e filha se desenrolam.

“O livro traz personagens voltados a cuidar uns dos outros. É preciso despertar para a importância do cuidado, é uma capacidade cada vez mais valorizada no mundo, inclusive corporativo. A grande mudança que temos hoje nas empresas é: ‘Olhe por mim que eu olho por você’”, resume Max, que esculpiu sua visão de espiritualidade a partir do entusiasmo por textos sagrados das mais diferentes culturas.

A volta a 1978 nas páginas traz, além de lembranças, reflexões sobre a atualidade. “Foi um ano de mudanças, um ponto de distorção, começava-se a falar de anistia, havia transformações comportamentais. Uma expectativa de novos tempos. Eu tinha 22 anos e um enorme entusiasmo. Vivíamos a liberdade plena, andávamos às 4h, 5h da manhã e voltávamos a pé. O Rio tinha umas 15 boates, a gente ia de uma casa noturna para a outra. Era uma esperança de não viver mais a repressão. Hoje também vivemos um momento de mudança. E é preciso combater esse sentimento de pessimismo e resgatar aqueles sentimentos de 40 anos atrás”, defende.

O autor também revive através da literatura o Max de 40 anos atrás, um jovem dedicado à arte. Nascido no Rio em agosto de 1957, o jovem Maximiliano herdou o talento da mãe, soprano e pintora. “Eu era vizinho da Djanira (desenhista, pintora e ilustradora, expoente do modernismo) em Petrópolis e passava horas com ela. Era um aprendizado. Em 1974, fiz minha primeira exposição na reabertura do Palácio de Cristal e, em seguida, várias exposições no Brasil, Portugal, Boston”, lembra Max, que interrompeu a fértil carreira na pintura para se dedicar à Engenharia: “Quando minha filha nasceu, viver de arte ficou complicado”. Bem-sucedido em sua vida profissional, hoje, aos 60, volta a investir seu tempo na paixão pela escrita, alimentada por viagens pelo mundo — o escritor passa cerca de três meses por ano fora do País: “Já me perguntaram o que eu sou em outro país e disse: ‘Sou um artista, pintor e escritor’”, conta

O livro também descortina a vida de uma personagem que é surpreendida por uma sequência de fatos que desafiam a capacidade de resiliência, perdão, aceitação. E guarda surpresas. A trama reflete a profunda visão de espiritualidade do autor. “Houve um Criador, não somos um Acaso, foi tudo desenvolvido para nós, para que a gente usufrua, tenha prazer, melhore. Quando morremos, o que se desprende do corpo e novamente flui é o que chamamos de alma, mas não vamos entender o que realmente acontece e para onde vamos. Mas nós entendemos as sensações do corpo, pelo esporte, quando se ouve uma música, faz sexo e quando cuidamos uns dos outros. Isso nos alimenta, alimenta a energia, a alma, nesse processo estamos nos reciclando, fazendo um mundo melhor. Somos todos energia”, discursa o autor, que contribui com sua literatura, feita com “ânima”, alma, em uma construção pautada em disciplina rígida que inclui trabalho diário, academia e depois das 18h uma hora e meia dedicada à escrita: “"Às vezes, eu me sento no computador só olho o teclado e vou escrevendo. Só depois paro, olho e corrijo. Quando leio penso: meu Deus, que coisa bacana”.

O incansável autor já planeja seu novo engenho: o terceiro livro “Boneca de pano”, sobre um morador de rua. “Todo mundo já viu um louco, pessoas que falam sozinhas nas ruas. Ele vive em três realidades, a primeira a nossa, que fala sobre sua história, quem foi, o que lhe aconteceu antes de sair da realidade, a segunda é a sua própria visão, a que nós não somos capazes de enxergar. E a terceira são seus sonhos, nunca saberemos o que passa em sua mente quando dorme. Na narrativa, o leitor não saberá de qual realidade estou falando. Será que não somos nós os loucos? Quando está lendo aquela é a nossa realidade ou a dele?”, indaga o autor, sempre preocupado em captar as lições do tempo: “Quando um amigo me pede um conselho eu digo: jamais faça nada que se torne irreversível. Se tiver um pingo de amor há possibilidade de perdão”.



Max Joffe, autor do livro "Janine", que aborda suas memórias dos vida carioca nos anos 1970 e 1980
Max Joffe, autor do livro "Janine", que aborda suas memórias dos vida carioca nos anos 1970 e 1980