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Arte transviada no Catete
Por REVISTA PROGRAMA
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Publicado em 06/03/2026 às 20:35
Alterado em 06/03/2026 às 20:35
O artista Caru Brandi trabalha temas como a dissidência de gênero Foto: Francisco Moreira da Costa
A dissidência de gênero é olhada de frente pelo artista transmasculino não-binárie Caru Brandi, que chega de Porto Alegre para mostrar no Catete sua obra. Com entrada gratuita, foi inaugurada nessa quinta (5) Fabulações transviadas de Caru Brandi, no Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular (CNFCP/Iphan), mostra que abre o calendário 2026 do Programa Sala do Artista Popular (SAP). É a primeira vez que a SAP realiza uma individual de um artista transmasculino não-binárie. O gaúcho Brandi apresenta pinturas e cerâmicas tendo como moldura um breve perfil do seu trabalho através de textos explicativos nas paredes da galeria. Na abertura, o público pôde assistir à performance ballroom dos artistas transmasculinos cariocas Maru e Kayodê Andrade.
Figurativas, as cerâmicas e pinturas de Caru retratam, de forma lúdica e crítica, a dissidência de gênero. As obras, em parte, espelham a própria história de vida do artista. Nos trabalhos, seres híbridos e oníricos assumem poses, posturas e expressões curiosas, realçadas por cores fortes. Todas as obras estão à venda.
A pesquisa e o texto do catálogo da exposição são do antropólogo Patrick Monteiro do Nascimento Silva, que visitou o ateliê de Caru Brandi em Porto Alegre. Como descrito no catálogo: “O ateliê onde Caru trabalha foi recentemente conquistado, após o projeto Além-mundos: memórias do (in)imaginário2, realizado de forma colaborativa com outros artistas trans no espaço independente chamado Casa Baka, com recursos de um edital da Lei Paulo Gustavo".
O pesquisador enfatiza a identidade marcante da obra. “Ao retratar esses seres que desafiam dicotomias estabelecidas, do que é humano, do que é a natureza, o que é homem, o que é mulher, a exposição abraça dicotomias, no caso da arte. Pode ser bastante interessante para o público visitar a exposição e ver como o Caru trabalha com essas questões”, analisa.
Patrick também destaca a importância da individual do artista gaúcho ocorrer no Programa Sala do Artista Popular, criado há 43 anos no CNFCP/Iphan. “É um marco importante para a SAP apresentar o fazer artístico de uma pessoa transmasculina em uma mostra individual. Atualmente, há no Instituto de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) um esforço para pensar sobre os patrimônios desse segmento da sociedade brasileira com a criação do Grupo de Trabalho LGBTQIAPN+, instituído através da Portaria do Iphan nº 260 de 27 de junho de 2025”, explica.
Sobre o GT-LGBT
Entre outras atribuições, o GT tem como objetivos fomentar parcerias com entidades governamentais e não-governamentais para o financiamento e troca de conhecimentos técnicos, no intuito de potencializar as políticas públicas de preservação da memória LGBTQIAPN+. Também formular e propor a criação de um Comitê Permanente do Patrimônio LGBTQIAPN+ do Iphan, com a finalidade de estudar e avaliar a implementação de uma política de preservação dos lugares, objetos, paisagens, celebrações, formas de expressão e demais referências culturais, a fim de garantir o direito à memória e salvaguarda do seu patrimônio.
Sobre Caru Brandi
A transmasculinidade se refere a pessoas que são categorizadas como do gênero feminino no momento do nascimento e que ao longo da vida se reconhecem como pertencentes ao gênero masculino, mas não se reconhecem necessariamente com a categoria “homem”. E não-binaridade diz respeito a um não pertencimento ao binário de gênero “homem” ou “mulher”.
Caru Brandi nasceu em Porto Alegre em 07 de janeiro de 1995, mas cresceu na zona rural da cidade vizinha, Viamão, a aproximadamente 25km da capital do estado do Rio Grande do Sul. A mãe de Caru é de Belém do Pará e se mudou para Porto Alegre à procura de trabalho. Após o falecimento do seu pai, quando tinha 1 ano de idade, a mãe se casou novamente, e quando Caru tinha 5 anos se mudaram para Viamão. Atualmente, mora e trabalha em Porto Alegre.
A tatuagem foi a primeira expressão artística de Caru, em 2018. Em 2020, começa a pintar e, em 2022, a criar cerâmicas e esculturas. Formado em Direito pela UFRGS, nunca exerceu a profissão. Trabalha com arte-educação em paralelo às atividades como artista visual.
Durante a pandemia de coronavírus, iniciou as aplicações com testosterona, o que orientou muitos dos temas de suas primeiras pinturas. No catálogo da exposição, o pesquisador Patrick Monteiro do Nascimento Silva ressalta o período, quando o artista menciona: “É um momento que eu começo a me hormonizar (...), a aplicar testosterona no meu corpo. E diferente de algumas narrativas que eu tinha, de algumas transmasculinidades (...). No lugar de uma representação desses corpos, [há] essa busca por uma identidade para mim também, a partir da hormonização”.
No texto do catálogo da exposição é citado o ponto de virada na vida pessoal do artista que afeta e reflete-se em toda sua obra a partir de então. É quando a mãe diz que vai amá-lo sempre, independente de suas decisões. “(...) a partir disso, a ‘vida se abriu’. Porque eu acho que eu me permiti, então, me encontrar também”.
Entre as séries de Caru, a “Transviades”, de 2020, gira em torno de aspectos da transição. “As formas que começou a criar tinham proporções que não tinham um compromisso real das partes do corpo. Do seu ponto de vista, isso tem a ver com uma crítica social sobre os olhares para o corpo dissidente – algo que ele começou a pensar depois que a obras já estavam feitas”, descreve Patrick no catálogo da mostra.
Caru conta ao pesquisador mais a respeito das obras prontas, momento em que enxerga as entrelinhas da composição. “O que a pessoa olha para quando ela tá olhando para você? Ela quer saber quem você é, se você é um homem, se você é mulher, ela olha para o seu corpo. (...) Se você é uma pessoa trans com barba, tem seios, não tem mastectomia, os seios vão estar em evidência. A pessoa vai estar lá confusa e vai estar tentando te decifrar a partir do teu corpo (...) Pensar em desafiar isso".
Inicialmente, em 2020, as pinturas de Caru eram aquarelas. Hoje, trabalha com tinta acrílica por buscar mais intensidade para as cores. Os trabalhos com cerâmica, que começam em 2022, utilizaram primeiro a cerâmica fria. Para conquistar visibilidade e vender seu trabalho, o caminho natural foram as feiras do circuito alternativo. No bar em que trabalhava, eventualmente, como garçom, ocorriam feiras aos domingos na garagem.
Ao longo da genealogia do processo artístico de Caru, o pesquisador ilumina os leitores sobre inspirações do artista, desde a infância quando, como uma criança de imaginação rica, conversava com o vento e com as árvores. Já adulto, Caru foi a Belém do Pará, terra natal da mãe, em uma viagem ao encontro da ancestralidade (a mãe traz a miscigenação indígena e negra). Patrick disserta no texto: “Como Caru descreve, [ele] quer pensar ‘a questão da fabulação, de fabular mundos e possibilidades’ e sobre qual resposta quer dar para o sistema que é violento contra o próprio planeta”.
Caru se inspira em Ailton Krenak, autor e ativista indígena, para refletir sobre o que é “humano” e sobre a invenção colonial do “humano”, além de ter a obra de Rosana Paulino como inspiração.
Serviço: Fabulações transviadas de Caru Brandi – Individual com obras de Caru Brandi / Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular | Museu de Folclore Edison Carneiro – Rua do Catete, 179. Catete – RJ. Tel. 21 3032.6052. / Dias e horários de visitação: Terça a sexta-feira, das 10h às 18h. Sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h. / Realização: Associação Cultural de Amigos do Museu do Folclore Edison Carneiro (Acamufec) | Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular do Instituto de Patrimônio e Histórico e Artístico Nacional (CNFCP/Iphan) / A exposição pode ser visitada até 22 de abril, de terça a sexta-feira, das 10h às 18h, sábados, domingos e feriados, das 11h às 17h.