ARTES

Rostos fragmentados

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Por PATRICIA SECCO

Publicado em 30/04/2026 às 08:06

Alterado em 30/04/2026 às 11:57

'Philistines', de Basquiat. 1982 Foto: reprodução

Há duas semanas, caminhei pelas salas do Louisiana Museum of Modern Art, em Copenhague, e saí de lá diferente.

Diante de mim, rostos fragmentados, corpos riscados com urgência, linhas que parecem gritos. A exposição de Basquiat não pede silêncio — ela invade. Ela pulsa. Ela confronta.

O americano do Brooklyn, Nova Iorque, Jean-Michel Basquiat foi jovem. Intensamente jovem. Viveu pouco, morreu no auge, aos 27 anos, em 1988, mas queimou em uma velocidade rara, como se soubesse que o tempo não lhe pertencia. E talvez por isso sua obra seja tão visceral — quase como um corpo aberto, sem defesa.

 


Basquiat: uma vida curta e intensa. Foto: reprodução

 

Ao olhar aquelas faces deformadas, pensei no acidente que transformou sua trajetória. Pensei também no meu. Em 1988, vivi um momento que poderia ter sido um fim. Mas foi, de alguma forma, um recomeço. Tive a sorte de ser reconstruída pelas mãos de Ivo Pitanguy — um homem que entendia que restaurar um rosto é também tocar a alma.

Talvez por isso eu tenha me emocionado tanto ali. Porque aquelas deformações não são apenas estéticas. Elas são memórias. São marcas de sobrevivência. São o registro de um corpo — e de um espírito — que atravessou algo. Basquiat não suaviza. Ele não embeleza a dor. Ele a expõe. E, paradoxalmente, ao fazer isso, cria beleza. Uma beleza incômoda. Necessária.

Saí do museu com a sensação de que a arte, quando verdadeira, não esconde as cicatrizes. Ela as transforma em linguagem.

E talvez seja isso que nos une — artistas tão diferentes, em tempos tão distantes: a necessidade de transformar aquilo que nos atravessa em algo que permaneça.

Algo que, mesmo fragmentado, ainda seja inteiro.


Dor exposta Foto: Patricia Secco


Marcas de sobrevivência Foto: Patricia Secco

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