ARTES

Musée Picasso: entre olhares e silêncios

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Por PATRICIA SECCO

Publicado em 19/02/2026 às 08:02

Alterado em 19/02/2026 às 18:13

Pablo Picasso - ousadia permanente Foto: reprodução

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Em junho de 2025, atravessei as portas do Musée Picasso, em Paris, como quem entra em território sagrado. O Hôtel Salé, com sua elegância silenciosa, parecia já sussurrar histórias antes mesmo do primeiro quadro. Há museus que exibem obras; ali, sente-se a pulsação de um gênio.

Diante da figura feminina de chapéu — olhar oblíquo, mãos entrelaçadas, cores que se fragmentam e se harmonizam — senti aquela vertigem que só a grande arte provoca. Picasso não pinta apenas um rosto: ele desmonta a forma para revelar o invisível. O verde da pele não é cor, é estado de espírito. O amarelo vibra como pensamento. As linhas quebradas organizam o caos interno de uma mulher que parece pensar o mundo enquanto o sustenta com os próprios braços.

 


Um dos vários magníficos portraits de Picasso expostos no museu do mestre em Paris Foto: Patricia Secco

 

Mais adiante, a menina com a boneca — delicada e intensa — me fez permanecer em silêncio por longos minutos. Há ternura, mas também inquietação. A infância ali não é apenas doce; é profunda, quase metafísica. Picasso compreendia que a criança carrega o mistério da origem. E talvez por isso suas figuras infantis tenham essa mistura de inocência e consciência.

Enquanto eu caminhava pelas salas, pensei na coragem de reinventar-se tantas vezes. Períodos azul, rosa, cubismo, classicismo — não há acomodação em sua trajetória. Há risco. Há ruptura. Há vida. E senti, como artista, um chamado íntimo: a arte precisa dessa ousadia permanente, dessa disposição de se despir para criar de novo.

Saí do museu com o coração acelerado e os olhos transformados. Picasso nos ensina que a beleza não é linear; ela é múltipla, fragmentada, às vezes desconcertante. Mas é exatamente nesse desencaixe que mora a verdade.

Em Paris, naquela tarde de junho, compreendi mais uma vez por que a arte é indispensável: ela nos reorganiza por dentro. E diante daqueles olhares pintados há quase um século, fui eu quem me senti observada — como se o quadro soubesse algo sobre mim que eu ainda estava prestes a descobrir.

 


Self portraits - Pablo Picasso Fotos reproduções

 

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