ARTES
O silêncio de Gerhard Richter
Por PATRICIA SECCO
Publicado em 22/01/2026 às 08:38
Alterado em 22/01/2026 às 08:39
Gerhard Richter no seu ateliê, em 1985 Foto: Gerhard Richter
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Entrei na Fundação Louis Vuitton e foi como atravessar um corpo de luz. A arquitetura de Frank Gehry abriga exposições que parecem que o artista nasceu ali.
Antes mesmo de ver as obras, já me senti em estado de “suspensão”, como se o espaço nos ensinasse a desacelerar o olhar.
Foi nesse cenário, quase etéreo, que encontrei a exposição do alemão Gerhard Richter, um dos nomes mais complexos e sensíveis da arte contemporânea que, no início de fevereiro, completará 94 anos. .
Richter com sua obra habita o território instável entre o abstrato e o figurativo, entre o que vemos e o que sentimos.

Exposição de Gerhard Richter na Fundação Louis Vuitton, Paris Foto: Patricia Secco
Caminhei lentamente pela exposição, permitindo que cada tela me atravessasse sem pressa. E, embora suas obras abstratas sejam potentes, confesso: é na pintura realista de Richter que mais me emociono. Existe ali uma delicadeza quase dolorosa. Um real que não é frio nem descritivo, mas profundamente humano. Suas imagens parecem carregadas de silêncio, como se fossem memórias que ainda respiram.
Entre todas, uma obra me tocou de maneira especial: Kerze (Vela, 1982). A chama solitária, suspensa no espaço, não grita, não se impõe — apenas existe. É um realismo tão preciso que se torna quase espiritual. A vela parece viva. Parece pulsar. Não é apenas uma imagem: é presença, é tempo, é respiração.

Pintura abstrata de Gerhard Richter de 1985 exposta em Paris em 2025 Foto: divulgação
Richter não busca o real como fotografia. Ele o busca como lembrança. Como algo que já aconteceu e, ao mesmo tempo, continua acontecendo dentro de nós.
Já em suas telas abstratas, as camadas de tinta são arrastadas, raspadas, sobrepostas, como se a pintura tivesse vivido várias vidas antes de chegar à superfície. São obras que não se entregam de imediato. Elas pedem tempo. Pedem permanência.
O que mais me tocou foi perceber que, mesmo no realismo, há sempre um sopro de abstração — e, na abstração, um vestígio de realidade. Como se Richter nos lembrasse que nada é totalmente claro, nada é completamente fixo. Tudo está em trânsito e movimento.
Ao sair da exposição, não levei respostas comigo. Levei estados. Levei silêncios. Levei camadas invisíveis que continuaram em mim enquanto atravessava novamente a arquitetura luminosa da Fundação.

A vela de Gerhard Richter na sobremesa do restaurante Frank, em homenagem ao artista Foto: Patricia Secco
E então, como uma continuação delicada entre arte e vida, fui almoçar no restaurante Frank, dentro da própria Fundação Louis Vuitton. Ali existe uma tradição que me encanta: o restaurante cria uma sobremesa inspirada no artista em exposição. E, naquele dia, a homenagem era justamente a Kerze. A vela de Richter transformada em sobremesa. A chama realista, agora traduzida em textura, sabor e forma. Não era apenas um prato — era uma escultura linda e deliciosa. A arte deixava a parede.
Naquele instante, compreendi que o realismo de Richter não termina na tela. Ele continua no olhar, na memória, e no paladar.
Ou seja, a arte continua em nós…