ARTES

A insustentável leveza de Henry Moore

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Por PATRICIA SECCO

Publicado em 08/01/2026 às 10:58

Alterado em 08/01/2026 às 14:35

As curvas exuberantes das obras de Henry Moore Foto: reprodução

Henry Moore foi um dos grandes mestres da escultura moderna. Inglês, filho de minerador, trouxe para a arte do século XX uma nova compreensão do corpo humano — não como retrato fiel, mas como essência.
Inspirava-se nas pedras, nos ossos, nas colinas, nas cavernas e nas paisagens ancestrais.

Para Moore, a escultura não deveria ser confinada a interiores: ela precisava do céu, do vento, do tempo e do olhar em movimento.

Seu trabalho ensinou que o vazio também é forma, e que a matéria só se completa quando dialoga com o espaço ao redor.

Caminhando pelo jardim do Louisiana Museum of Modern Art, situado no norte de Copenhagen, Dinamarca, onde vim passar as festas de fim de ano, fui lentamente sendo conduzida por essa presença.
Não cheguei até a escultura — foi ela que me chamou.

Algo em suas curvas abertas, em seus silêncios, em sua maneira de se deitar diante do mar, me convidou a contorná-la.

Passei ao redor, mudei de ângulo, aproximei, afastei. A cada passo, a obra se transformava.

Não era mais a mesma, e eu também já não era.

Fiquei horas ali. O tempo perdeu sua pressa.

As formas orgânicas do bronze pareciam ecoar o relevo da paisagem: corpo e natureza fundidos, como se tivessem nascido juntos.

Os vazios — tão presentes quanto a matéria — deixavam o céu atravessar a escultura, deixando entrar a luz, o azul, o respiro.

Moore nos ensina que o que falta também constrói, que o espaço entre é tão potente quanto o cheio.
Havia algo de profundamente humano naquela escultura que não tenta ser humana. Um corpo fragmentado, reclinado, ancestral, que não se impõe, mas se oferece.


Escultura magnífica de Henry Moore no jardim do Louisiana Museum, em Copenhagen Foto: Foto: Patricia Secco

Ela não grita; sussurra.

Não explica; convida.

É abrigo, é pausa, é escuta...

O bronze, pesado por natureza, ali se torna leve, quase líquido, como se tivesse aprendido com o mar à sua frente a arte de permanecer.

Ao caminhar ao redor da obra, senti que ela não precisava ser compreendida — apenas vivida.

Moore nos lembra que a arte não é resposta, é pergunta aberta.

E naquele diálogo silencioso entre escultura, horizonte e corpo, compreendi que algumas obras não querem ser vistas rapidamente.

Elas pedem tempo.

Pedem presença. Pedem que fiquemos.

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