CADERNO B
Uma homenagem a Ziraldo, por Zuenir Ventura
Por GILBERTO MENEZES CÔRTES
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Publicado em 28/10/2026 às 11:07
Alterado em 28/10/2026 às 11:11
O saudoso Ziraldo Foto: Acervo JB (Licenciamentos: [email protected])
'Ziraldo - o muitos
por Zuenir Ventura
"Como Ziraldo não é um só, são muitos e variados, é difícil reduzi-lo a uma unidade, mas acredito que seu múltiplo comum é o humor, que está presente em tudo o que faz, seja como cartunista, escritor, jornalista, ilustrador, criador de histórias para crianças, artista gráfico ou dramaturgo.
Seus leitores pertencem a todas as idades, da primeira à terceira ou quarta, o que lhe garante a singular possibilidade de vir a ser o único artista brasileiro de sua geração a continuar sendo lido no ano 3000 como é hoje, já que seus milhares de leitores de cinco ou seis anos, por exemplo, terão em torno de 90 na virada do século e provavelmente ainda estarão carregando debaixo do braço ou disputando com os netos um dos livros do criador de "Menino Maluquinho.
Se amanhã tivermos uma juventude letrada no Brasil, muito se deve a Ziraldo. Uma vez, no interior do Rio Grande do Sul, eu fazia uma palestra reclamando que não se lê no país, quando se levantou uma professora e contestou: só se forem os jovens e os adultos, porque as crianças leem". E informou que no dia anterior, duas mil crianças haviam passado horas comentando com Ziraldo os seus livros. Foi no interior do Rio Grande do Sul, mas poderia ser no interior do Nordeste ou da Amazônia.
Como a Terra, Ziraldo e eu atravessamos bravamente os períodos do terciário, do quaternário, do... e chegamos à era dos septuagenários. Tínhamos tudo para sermos irmãos, mas, na última hora, Alguém disse: "já que não dá pra botar vocês na mesma família, já têm muitos Z nas duas - Ziralzi, Zeir, Zenir, Zélio - boto juntos em outro lugar. Vocês vão ser vizinhos o resto da vida no alfabeto, no afeto e no coração.
Em compensação, logo que nascemos, ele em Caratinga e eu em Além Paraíba, um anjo torto nos condenou a uma mesma provação: "tomem esses nomes e com eles vocês vão ser sempre os últimos das chamadas e dos manifestos". No exame oral isso até nos ajudava, porque podíamos ficar ouvindo os que estavam na nossa frente na fila. Mas durante a ditadura militar, a coincidência nos custou algumas cadeias. Como nos explicou o coronel encarregado de um de nossos IPMs, quem manda começar por Z? Deram azar porque a gente só lê o princípio e o fim da lista. Às vezes nem isso, só o fim.
Ser confundido como irmão de Ziraldo, pegar carona no seu sucesso, me deu uma certa fama por tabela. Fizemos juntos algumas viagens ao exterior - Vilma e ele, Mary e eu - e aí pude ver, ninguém me contou, o seu prestígio no meio artístico, gráfico e de humor de cidades como Nova York, Paris, Roma e Milão. Os invejosos do seu sucesso, entre os quais me incluo, a ponto de achar que escrevi "Inveja: mal secreto" só para sublimar esse sentimento em relação a ele, vivem procurando defeitos nele. De fato, Ziraldo é um exagerado: seu coração é enorme, sua alma nunca foi pequena e sua capacidade de doação e entrega não tem tamanho, é infinita. Ele fala demais, não ouve, vive com pressa, é ansioso demais, agitado demais e acha que pode abarcar o mundo com as pernas, no caso dele, com as mãos. E o pior é que abarca.
Também costumam dizer que seu pecado maior é gostar de aparecer. Devo reconhecer que é verdade. De aparecer e de transparecer. Não conheço ninguém mais translúcido. Beira à inconveniência, e muitas vezes a toca. Desmente todos aqueles estereótipos de que o mineiro é prudente, recatado, tímido, reservado. Se isso é verdade, trata-se do mineiro mais antimineiro que existe. Bastam alguns minutos para se descobrir todos os seus defeitos. Ele os mostra, com uma franqueza singela, quase infantil.
Me lembro da Vilma, cheia de recato, morrendo de vergonha diante de uma gafe qualquer do marido, chamando sua atenção com um "Zi-ral-do!", cuja entonação sabíamos que queria dizer “pára, olha o que você está dizendo!" Não adiantava. Ele não pensa para falar; dá sempre a impressão de que fala para pensar, ou seja, é como se a expressão viesse antes do pensamento. Deve ser deformação profissional, porque desenhando é a mesma coisa. A velocidade com que cria só é comparável à rapidez do raciocínio. Não é um bom negócio discutir com ele, a não ser quando se está do mesmo lado.
É de praxe, num texto como este, citar aqueles dados biográficos da vítima: onde nasceu, como começou a andar, a Primeira Comunhão ... Vocês ficariam exaustos só de acompanhar a lista de seus feitos profissionais. De mais a mais, o que acrescentaria à sua história informar que ele nasceu no dia 24 de outubro de 1932, que começou a desenhar antes de andar e que pegou no lápis antes da mamadeira? Dizer que ele tem três filhos adoráveis, tudo bem, porque Daniela, cenógrafa e diretora de cinema, Fabrizia, também diretora de cinema, e Antônio, um músico da pesada, são certamente as três melhores coisas que ele desenhou na vida.
Mas que importância pode ter descobrir que ele chegou ao Rio em 1949 para trabalhar em jornal, queria ser caricaturista, desenhista de história-em-quadrinhos ou ilustrador? Como não havia a profissão de HO, foi trabalhar numa agência de publicidade, a McCann Erikson, enquanto não conseguiu ir para a imprensa. Ou dizer que em 1952 voltou para Minas e, em 1957, formou-se em Direito? Quem está interessado em saber que Ziraldo é advogado, se ele nunca usou seus saberes jurídicos nem para se defender quando esteve preso várias vezes pela ditadura militar?
Eu poderia dizer também que em 1958 ele mudou-se para o Rio e se transformou num dos cartunistas mais conhecidos do país, com trabalhos publicados em várias revistas internacionais e num artista gráfico reconhecido em todo o mundo, sem falar que começou a trabalhar nas revistas "O Cruzeiro", "O Cruzeiro Internacional" e a "Cigarra". Mas não sei se vale a pena lembrar tudo isso, tão antigo. Se é para mexer em baú, talvez fosse melhor então recordar 1960, o ano em que realizou seu sonho infantil de se transformar num autor de histórias-em-quadrinhos.
Foi quando lançou a primeira revista brasileira do gênero, "Pererê", a primeira de história em quadrinho de autor brasileiro.
E não é só no planeta Terra que Ziraldo é popular. Perguntem a qualquer habitante da Lua, criança ou adulto, qual é o livro mais conhecido por lá. Eles podem até errar o nome do autor, mas vão responder sem titubear: "Flicts". O livro desembarcou em 1969, levado por aqueles primeiros astronautas a pisarem o solo lunar e, a partir de então, foi um sucesso.
E O Menino Maluquinho? Ah, não, desse nem eu aguento mais ouvir falar, nem eu nem mais de dois milhões de pessoas que compraram o livro e depois viram os dois filmes e assistiram às peças ou a ópera do Ernani Aguiar e se emocionaram com a poética das cores e sempre tiveram na família uma criança que, um dia, na sua escola, participou de uma encenação do "Flicts" ou do Maluquinho e viu o filme, e...
Já que Ziraldo é interminável, termino eu, dizendo que, além de tudo, ele é detentor de um título que, para quem tem tantos, pode não significar muito, mas para mim é muito importante: ele é um de meus melhores amigos."

O recém-falecido e querido Zuenir Ventura Foto: divulgação
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Infelizmente, perdemos Zuenir Ventura em 22 de setembro de 2026.
Fonte: Catálogo Cartunistas da América do Sul, 2005, p. 193-202.