CADERNO B
Ilusão coletiva: como as redes digitais estão transformando a política e a sociedade
Por CADERNO B
Publicado em 14/10/2026 às 20:26
Alterado em 14/10/2026 às 20:57
O psicanalista Marcio Garrit Foto: divulgação
O psicanalista e professor Marcio Garrit, autor do livro "Ilusão coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo", conversou com o JORNAL DO BRASIL.
Em uma época em que opiniões, emoções e comportamentos se espalham pelas redes sociais em questão de segundos, compreender o que leva milhares – ou milhões – de pessoas a aderirem às mesmas ideias tornou-se uma questão cada vez mais urgente. É nesse território, entre a psicanalise, o funcionamento das massas e a lógica das redes digitais, que se situa o livro "Ilusão coletiva: Psicanálise, Massas Digitais e Ciberpopulismo".

Capa do livro 'Ilusão coletiva: psicanalise, massas digitais e ciberpopulismo' Foto: divulgação
O que o levou a escrever Ilusão Coletiva e a investigar, a partir da psicanalise, o comportamento das massas no ambiente digital?
Ilusão Coletiva nasceu de um incômodo muito forte e de uma experiência histórica concreta. Sou psicanalista há quase duas décadas e acompanhei, como brasileiro, a formação de uma militância digital organizada em torno do bolsonarismo, uma verdadeira milícia virtual mobilizada pelo medo, pelo ressentimento e pelo ódio.
Uma coisa é estudar nos livros como um fenômeno de massa se constituiu há 50 ou 100 anos. Outra é assistir a isso acontecer diante de nós. Vimos nascer uma massa que não precisava ocupar o mesmo espaço físico para permanecer unida em torno de um líder. Minha pergunta passou a ser: como pensar uma psicologia das massas no mundo digital? O que acontece com a liderança quando ela circula permanentemente por vídeos, mensagens e imagens?
Foi nesse ponto que recorri à psicanálise. Em Psicologia das massas e análise do eu, de 1921, Freud afirma que a psicologia individual é, desde o início, também social. A psicanálise nunca foi apenas uma teoria do indivíduo no consultório. Ela também nos permite compreender as identificações coletivas, os vínculos e a destrutividade humana.
Escrever o livro foi também um protesto contra o que chamo de conservadorismo burro dentro da própria psicanálise. Muitos transformaram teorias de outras décadas em dogmas e se recusam a estendê-las diante das mudanças culturais. Eu leio essa união pelo ódio e pela destruição como uma expressão contemporânea da pulsão de morte. O livro procura mostrar que Freud permanece assustadoramente atual, mas que a psicanálise só continuará relevante se tiver coragem de enfrentar um mundo que ele não conheceu.
De que maneira redes sociais e os ambientes digitais favorecem o surgimento do ciberpopulismo?
Para compreender por que o ciberpopulismo encontra um terreno tão fértil, precisamos olhar primeiro para o sujeito. Freud mostrou que nossas escolhas, identificações e crenças não nascem apenas de decisões conscientes. Elas também respondem ao desamparo, à necessidade de pertencimento e ao desejo de encontrar proteção diante da realidade.
O ciberpopulismo explora justamente essa região. Ele transforma angústias complexas em explicações simples, escolhe um inimigo em quem descarregar o mal e promete uma plenitude impossível. Diz ao sujeito aquilo que ele deseja ouvir e autoriza o que deveria ser contido: o ódio, a violência e o desejo de destruir o diferente.
As redes sociais não inventaram essa sombra humana. O que fizeram foi lhe dar velocidade, repetição, personalização e uma escala inédita. As plataformas aprendem, a partir dos nossos rastros, quais mensagens despertam medo, indignação ou prazer e passam a nos oferecer mais daquilo que nos mantém conectados. O líder já não precisa reunir uma multidão. Ele pode ocupar a intimidade de milhões de pessoas por meio de um celular.
No fundo, existe aí uma operação narcísica: preservar uma imagem idealizada de si e do próprio grupo, enquanto o mal é depositado no outro, que então pode ser atacado sem culpa. O ciberpopulista transforma essa divisão psíquica em projeto político. Ele não cria o mal-estar, mas oferece a ele um destino, um inimigo e uma autorização.
Como psicanalista, porque discursos que apelam as emoções, aos medos e ao sentimento de pertencimento conseguem mobilizar tantas pessoas?
Porque ninguém participa da política apenas pela razão. Freud mostra que o desamparo marca o ser humano desde o início. Dependemos do outro para sobreviver e dar contorno a um mundo incerto. Essa marca permanece na vida adulta e se intensifica nas crises.
O ciberpopulista explora essa vulnerabilidade. Primeiro, aumenta a ameaça: o comunismo, o caos econômico, o estrangeiro, o inimigo interno. Depois, oferece a si mesmo como solução: “Eu vou proteger vocês, devolver a ordem e conduzir o país à prosperidade”. Ele não apresenta apenas um programa político. Oferece um pacote psíquico: um medo, um culpado, uma promessa e um pai protetor.
Ken Loach retrata esse desamparo em filmes como Eu, Daniel Blake e Você Não Estava Aqui. Quando as instituições deixam de oferecer sustentação, cresce a procura por pertencimento e por alguém que prometa eliminar a incerteza.
Existe aí um movimento regressivo. A democracia exige que suportemos o conflito, a diferença e a ausência de respostas prontas. O líder autoritário propõe o contrário: entregue a ele sua dúvida e, em troca, receba certezas. O ambiente digital torna essa presença permanente e íntima. Uma tecnologia moderna passa, assim, a alimentar uma posição psíquica infantilizada e o resultado é uma sociedade cronicamente regredida.
O que acontece com a capacidade de pensar criticamente quando estamos inseridos em uma multidão digital que compartilha as mesmas crenças, medos e indignações?
Ela não se torna menos inteligente. O que acontece é mais grave: coloca sua inteligência a serviço da própria crença. Em vez de examiná-la, produz argumentos para protegê-la e continuar pertencendo ao grupo. O pensamento crítico se transforma no advogado de uma convicção que já não admite julgamento.
Isso começa na infância. Uma criança precisa aprender a suportar frustração, tédio, medo e a existência do diferente. Quando isso não acontece, crescer não significa amadurecer. Podemos ter um adulto infantilizado, com um Eu frágil que exige confirmação constante. Tudo o que “arranha” essa superfície é vivido como ofensa.
Nesse adoecimento narcísico, o outro deixa de ser um interlocutor e se torna alguém que precisa ser calado ou destruído. O ciberpopulista reconhece esse funcionamento, alimenta-o e o autoriza.
O segundo movimento envolve idealização e identificação. O líder é transformado em alguém que sabe, protege e oferece respostas. O sujeito passa a se reconhecer nele e nos outros integrantes da massa. Cria-se uma espécie de sequestro psíquico: quem produz o medo também se apresenta como o único capaz de oferecer proteção. As redes aprofundam essa captura pela repetição das mesmas certezas e indignações. O preço do pertencimento passa a ser a renúncia ao pensamento crítico. O sujeito continua pensando, mas somente até o ponto em que seu pensamento não ameace o vínculo que o sustenta.
A polarização nas redes sociais parece transformar o outro em um inimigo. Como a psicanalise pode nos ajudar a compreender sobre essa necessidade de encontrar um ¨culpado¨ ou um ¨inimigo¨ para aquilo que nos angustia?
Até aqui falei sobre a entrega ao líder. Mas todo líder autoritário também precisa fabricar um inimigo. São duas faces da mesma operação: o líder recebe a idealização; o inimigo passa a carregar todo o ódio. A angústia é difusa. Quando alguém oferece um culpado, tudo fica mais simples. O desamparo, a precariedade e as contradições pessoais ganham um responsável: o comunista, o estrangeiro, a universidade, o Supremo ou qualquer inimigo escolhido. Dar um rosto ao mal produz alívio. Se todo o mal está no outro, eu e meu grupo continuamos nos imaginando inteiramente bons.
Isso começa na infância, quando aprendemos ou não a suportar frustrações, limites e diferenças. Mas não podemos responsabilizar apenas as famílias sem perguntar o que a sociedade está fazendo com elas. A lógica neoliberal, com trabalho excessivo, competição permanente e luta pela sobrevivência, enfraquece os vínculos e retira tempo e condições para o cuidado.
Adultos rezando para um pneu, chorando diante de quartéis e pedindo intervenção militar não produzem apenas cenas ridículas. Revelam um funcionamento regressivo e socialmente patológico: a procura por uma autoridade que restaure uma ordem imaginária e elimine o inimigo. As redes amplificam essa regressão, e o ciberpopulista a autoriza. O ódio passa a funcionar como vínculo. O grupo já não se une em torno de um projeto de sociedade, mas da fantasia de destruir alguém. Esse adulto de hoje acaba parecendo uma eterna criança traumatizada. Chegamos a isso!
A celebre imagem proposta por Arthur Schopenhauer, da vida como um pêndulo entre a dor e o tedio parece ganhar ainda mais força no contexto contemporâneo. No sec. XIX, o filosofo observava o desejo como motor do sofrimento humano. Podemos dizer que hoje vivemos em uma sociedade que não apenas estimula esse desejo, mas o intensifica, o acelera constantemente?
Sim. Mas eu colocaria de outra maneira: a sociedade contemporânea não inventou o desejo; industrializou a insatisfação. Schopenhauer escreveu que a vida oscila “como um pêndulo, para cá e para lá, entre a dor e o tédio”. Desejamos porque algo nos falta.
Quando conseguimos o que queríamos, o alívio dura pouco e outro desejo aparece.
Para a psicanálise, nenhum objeto consegue encerrar o desejo definitivamente. O mercado aprendeu a lucrar com isso. Cada celular, corpo, viagem ou carreira é apresentado como o objeto final: “Compre isto e você estará completo”. O produto chega, perde o brilho e outro aparece. O pêndulo de Schopenhauer ganhou um motor e agora funciona 24 horas por dia.
A leitura de Alain Ehrenberg ajuda a compreender a cultura do self-made man. Byung-Chul Han mostra como o neoliberalismo transforma liberdade em desempenho e autoexploração. O sujeito precisa ser empreendedor de si, produtivo, visível e feliz.
Basta ouvir o vocabulário da ostentação: ficar milionário deixou de ser fantasia e virou quase uma obrigação moral. Se alguém não consegue, dizem que lhe faltou esforço.
No Brasil, esse manual é uma crueldade. Vivemos num país profundamente desigual, sem igualdade real de partida. A lógica neoliberal vende a promessa de ascensão individual enquanto conserva a desigualdade. O problema não é desejar. Sem desejo, não há movimento nem vida. O problema é obrigar todos a desejar os mesmos objetos e depois culpá-los por não alcançar uma plenitude que nunca existiu.
Qual é o principal alerta que ¨Ilusão Coletiva¨ gostaria de deixar para o leitor – e o que ainda podemos fazer para não sermos capturados pelas ilusões das massas digitais?
O principal alerta pode ser resumido num paradoxo: Freud continua assustadoramente atual, e isso não é uma boa notícia. Ele conhecia nossa capacidade de odiar, destruir e trocar a liberdade pela proteção de um líder. A plataformização da vida não inventou essa destrutividade, mas lhe deu canais permanentes de expressão, repetição e autorização.
Há também um alerta à própria psicanálise. Quando uma teoria vira pai, líder ou dogma, a psicanálise forma sua própria massa. Em vez de pensar o século XXI, tenta encaixá-lo à força em fórmulas do século XX e passa a reproduzir aquilo que deveria analisar.
E o que fazer? Essa é a parte difícil. Não existe um manual de cinco passos. Podemos reduzir nossa exposição às redes, recuperar o pensamento crítico e sustentar a dúvida diante das certezas prontas. A análise pessoal pode nos ajudar a perguntar por que o diferente é tão insuportável e por que a promessa de um líder oferece tanto alívio.
Precisamos reaprender a suportar ambivalência, frustração e falta. O pensamento só sobrevive onde ainda existe espaço para discordar e mudar de ideia. A esperança é o que nos resta, mas esperança sem trabalho psíquico, cultural e político corre o risco de se tornar apenas outra ilusão.
Marcio Garrit é psicanalista, professor e pesquisador. Doutor em Psicologia Clínica pela PUC-Rio e mestre em Psicanálise, Saúde e Sociedade pela UVA/RJ, investiga os efeitos psíquicos e culturais dos algoritmos, das plataformas digitais e da inteligência artificial. Seu trabalho articula a metapsicologia freudiana às transformações contemporâneas do laço social, com especial interesse pela formação das massas, pelas novas formas de liderança e pelos impasses da clínica.
É professor do CEFAS, em Campinas, membro da Sociedade de Psicanálise Iracy Doyle (SPID/RJ) e criador do PSI(em)CENA, projeto que coloca o cinema em diálogo com a psicanálise e a cultura.
É autor de "Ilusão Coletiva: Psicanálise, massas digitais e ciberpopulismo", livro resultante de sua pesquisa de doutorado. Também escreve para o portal Outras Palavras, onde publicou “O pai, o filho e o fantasma do ciberpopulismo”.
Entre suas publicações recentes estão o artigo internacional “Entre o psíquico e o algorítmico: o problema do inconsciente digital”, publicado na revista La Época APA Online, da Asociación Psicoanalítica Argentina; “Sobre as massas digitais: algoritmo, ilusão e liderança”, na revista Estudos de Psicanálise, do Círculo Brasileiro de Psicanálise; e “Malditas antenas Haarp: reflexões sobre o fanatismo”, na revista Tempo Psicanalítico.