CADERNO B

Filme resgata crime da ditadura paraguaia e destaca novo momento do cinema local

A adaptação de uma história real sobre repressão e violência ganha projeção internacional e simboliza a retomada do audiovisual no Paraguai

Por CADERNO B
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Publicado em 31/07/2026 às 17:34

Alterado em 31/07/2026 às 17:35

O ator Diro Romero Foto: divulgação

Entre as ditaduras militares da América do Sul, a do Paraguai foi a mais longa, sob o comando de Alfredo Stroessner entre 1954 e 1989. Ao longo de 35 anos, o regime foi responsável por prisões arbitrárias e ilegais, torturas, mortes e exílios, deixando marcas profundas na sociedade paraguaia. Os dados divulgados pela Comissão da Verdade e Justiça do Paraguai, em 2003, apontam a extensão dessa repressão e ajudam a dimensionar o impacto do período.

Entre os grupos mais atingidos estavam pessoas LGBTQI+, frequentemente alvo de perseguição e violência. Um dos episódios mais emblemáticos desse contexto foi o assassinato de Bernardo Aranda, locutor de rádio homossexual morto em 1959. O crime nunca foi esclarecido, e a comissão chegou a indicar a possibilidade de envolvimento do governo militar no caso.

Do livro ao cinema

A história de Aranda inspirou o livro Narciso, escrito por Guido Rodríguez Alcalá, e ganhou agora uma adaptação cinematográfica dirigida por Marcelo Martinessi. O filme, intitulado Quién Mato a Narciso?, foi premiado como Melhor Filme da Mostra Panorama do Festival de Berlim e exibido na competição sul-americana do Bonito CineSur, em Bonito (MS).

Na sessão do festival, o ator Diro Romero, que interpreta Narciso, destacou que o filme não oferece uma resposta definitiva porque o próprio país ainda não esclareceu o crime. Para ele, a ausência de solução no cinema reflete a realidade paraguaia, marcada por casos semelhantes de desaparecimentos, torturas e mortes que continuam sem resolução.

Cinema, memória e integração regional

Romero também afirmou que levar essa história à tela busca reforçar a importância da memória e impedir que a violência se repita na América do Sul. Segundo ele, os países da região compartilham origens e experiências históricas, e o momento exige mais união entre os povos, não mais divisão.

O lançamento do filme coincide com um novo impulso do cinema paraguaio. Nos últimos anos, o país aprovou a Lei do Cinema, criou o Instituto Nacional do Audiovisual do Paraguai e passou a integrar um acordo de coprodução cinematográfica e audiovisual do Mercosul, que moderniza regras e facilita o acesso a fundos públicos de fomento entre Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai.

Um setor em expansão

Para o ator, músico e produtor Celso Franco, o cinema paraguaio só começou a ganhar força de verdade após o sucesso de 7 Caixas, em 2012, filme que atraiu cerca de 300 mil espectadores ao país. Ele avalia que o avanço recente está ligado a uma mudança de visão sobre a própria cultura e à criação de mecanismos concretos de apoio à produção audiovisual.

Com o fortalecimento do INAP e a ampliação dos fundos de incentivo, o Paraguai passa a ter mais condições de produzir e exportar suas histórias. Para Franco, ainda há muitas narrativas a serem contadas, e o cinema pode se tornar uma ferramenta central para recuperar a memória, ampliar o debate público e projetar o país no cenário internacional. (com informações da Agência Brasil)